domingo, 17 de abril de 2011

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
“Dispersão” – Mário de Sá Carneiro


Colo de mãe

O ribombar da trovoada tragava o mundo. Os relâmpagos rompiam impiedosamente o céu, pintado de uma negrura, que parecia anunciar o final dos tempos. A chuva caía com desenfreada raiva. O vento soprava com cólera. O mar revolto anunciava que tinham aberto as comportas do inferno. As ondas rebentavam na praia, vergastando a areia com a violência de um verdugo posto em desassossego.
Os olhos da mulher que, no terraço da “suîte” de um hotel de luxo, contemplava o mar no meio da tempestade, encheram-se de água tenebrosa, que brotou do fundo da sua alma à deriva. A consciência dela era agora um vulcão em erupção, a expelir lavas de desesperada angústia.
O seu olhar fixou a fúria do mar. As águas devolveram-lhe o rosto de um menino que pedia colo a sua mãe. Mas esta, corroída até às entranhas, pelas exigências de uma vida profissional desgastante e avassaladoramente competitiva, só conseguia ver nesses olhos suplicantes e ávidos de amor materno, o fantasma que, a cada instante, queria roubá-la à profissão e sugar-lhe o seu escasso e, por isso, tão precioso tempo.
Esta mãe jamais se detivera a contemplar a limpidez do olhar do seu menino, através do qual e para além do qual, ele deixava ver a sua alma imaculada. Nunca lhe ofertara um sorriso despreocupado, nem nunca existira, ainda que por breves instantes, só para ele.
Jamais o menino soube o que era o doce enroscar no colo da mãe. Nunca conheceu aquele porto-de-abrigo incondicional chamado regaço materno, porque a mãe não tinha tempo para encontrar a paz, e não podia dar aquilo que não tinha.
A mãe do menino, numa permanente e desenfreada agitação, jamais conseguiu encontrar o verdadeiro lenitivo para esse padecimento dos tempos modernos: a cegueira do êxito profissional. Por isso, nunca encontrou tempo para fazer uma verdadeira aproximação ao filho, nem nunca deixou transparecer o seu amor materno, esquecendo-se de ligar o interruptor que encheria de luz o seu coração de mãe e aqueceria a alma do menino.
Os anos decorreram com um ritmo vertiginoso e nessa voragem do tempo, a mãe do menino nunca olhou para trás.
Hoje, o grito dela ecoa a partir do terraço de uma “suîte” de um hotel de luxo no fim do mundo, à beira de uma praia em território da Polinésia Francesa, para onde, escassas semanas depois de o menino ter sucumbido a uma meningite, ela fugiu, na ilusão de, nessas ilhas paradisíacas, obter a paz nunca antes alcançada. Esqueceu-se que, neste mundo, o dinheiro compra quase tudo, mas nunca a paz. Olvidando que nem no Pacífico Sul, nem em qualquer outra parte do planeta, nada nem ninguém pode trazer de volta a uma mãe, o tempo perdido, percorreu, numa aflição, os cinco arquipélagos da Polinésia Francesa - Sociedade, Marquesas, Austrais, Mangarevas e Tuamotu, estando agora instalada num hotel de luxo taitiano em Papeete.
Pobre mãe só! Apenas cheia de dinheiro e de sucesso profissional!
O seu grito é um pranto despedaçado e estilhaçado pelo tempo tão desgraçadamente deitado fora. Por isso, por entre a perdição da insónia nocturna e o inferno da tempestade, ecoam palavras desesperadas que encerram em si toda a loucura vã do remorso que sobra:
- Filho! Por amor de Deus, volta e pede-me colo outra vez!


Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa

32 comentários:

  1. Por vezes cometem-se erros irremediàveis...e o tempo n~ao volta para tràs.
    Bjs

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  2. Querida Lilá(s):
    É verdade! Há erros que não mais poderão ser reparados. E, quando se toma consciência disso, como aguentar a dor?
    Um abraço e Santa Páscoa.

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  3. de um menino sem colo

    a uma mulher que grita por um!

    implacável é a vida e as suas contra-voltas

    um abraço

    manuela

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  4. Dizer que é bem escrito, etc, já a Isabel Maria sabe e a minha singela opinião não é relevante.
    Por isso atrevo-me a colocar uma questão diferente:
    O seu texto descreve a vida de uma mãe (mas que pode ser tb o pai), que "esquece" a relação mãe-filho, por causa da sua vida profissional. Ou melhor: neste caso, ambição pessoal e profissional. Depois vem o remorso.
    Mas tb há o reverso: quantas mães/pais não foram mais longe na sua vida pessoal e profissional para "cuidar" os filhos!? Muitos. E depois? - Anos mais tarde, quando a mãe/pai necessita apenas de afecto filial, o não recebe?
    Pois é, há muitos tipos de amores e (des)amores E muita forma de dor. E muitas formas de os escrever e descrever. E ainda bem!
    Claro, é um prazer ler!
    Abraço

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  5. Que conto com um fundo fortíssimo, emocionante! Me lembrou o filme "Click".

    Difícil desafio esse, de conciliar vida profissional e pessoal, é um dilema. Cabe ver qual a nossa prioridade, mas daí vem as intempéries da vida, como uma doença, e que muda tudo. Eu diria que tem coisas que nem o tempo restabelece, quando se perde o vínculo.

    Abraco!

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  6. Olá Isabel
    posso dizer que acertou na "mouche" quanto a este assunto e no que me diz respeito... é algo a que sou extremamente sensível. Um dos meus problemas existênciais, uma vez que a vida profissional rouba-me o tempo que antes dedicava aos meus filhos... digamos que temos procurado aprender a (re)distribuir o tempo e as atenções... Por outro lado tb penso que se eu me anulasse como pessoa (o que tb sou, além de ser mãe) seria alguém mais infeliz e desajustada e talvez um exemplo não muito bom para os meus filhos... por isso vamos doseando as coisas para que não aconteça nada irreparável como aos protagonistas da sua excelente história!
    Mas não deixa de ser um tema preocupante nos dias que correm em que as mulheres tb têm uma carreira. Isto deve ser da responsabilidade da família e não apenas da mulher...muito haveria para acrescentar, pois faz parte de um processo histórico na nossa sociedade!
    Bjs e uma Feliz Páscoa (tenho mensagem para si no meu post)

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  7. Querida Manuela:
    Fico feliz por estar em sintonia comigo.
    Um abraço.

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  8. Olá, Álvaro!
    Em primeiro lugar, não sei se o texto está bem escrito. Em segundo lugar, a sua opinião, nunca é singela, com a conotação depreciativa que o Álvaro lhe dá. E, "last but not least", a sua opinião é relevante.
    Quanto ao mais, concordo integralmente com o que diz. É verdade que o problema se coloca igualmente em relação aos progenitores masculinos ausentes e não só em relação às mães. E não é menos verdade que muitos pais e mães abdicaram de uma carreira para darem colo aos seus filhos, que, mais tarde, os tratam como uns trastes velhos, uns trambolhos, uns transtornos. Em tempos, recebi via net, uma mensagem belíssima de um velhinho que pedia ao filho que, quando ele (velhinho) não quisesse comer, o filho agisse com ele com a mesma calma e paciência com que ele sempre agiu para com o filho quando ele era pequenino e não queria comer, que, quando o velhinho não quisesse tomar banho, actuasse com a mesma serenidade com que ele sempre tinha actuado quando o filho em pequeno, recusava tomar banho. E por aí fora, num desdobramento de exemplos do dia-a-dia. Essa mensagem comoveu-me muito, porque é um alerta ensurdecedor para a nossa maldita impaciência e estúpida incompreensão.
    Já lhe tomei muito tempo e já expropriei uma grande quantidade do seu espaço.
    Que a sua Páscoa seja uma época com saúde e paz.
    Um abraço.

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  9. Querida C:
    Pese embora tratar-se de uma tarefa árdua, não é nada impossível.
    Um abraço.

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  10. Querida CF:
    Já me habituei à sua visita amável e aos seus comentários sempre tão oportunos e profícuos.
    O importante na vida, é irmos encontrando o nosso ponto de equilíbrio entre o profissional e o familiar e percepcionarmos que os nossos filhos conseguem entender o nosso esforço e são capazes de encontrar nele o seu próprio ponto de equilíbrio.
    Um abraço e tenha uma Santa e Feliz Páscoa.

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  11. Isabel a vida é feita de encontros e desencontros.
    Sobre o selo tive que rir.
    Não custa depois explico.


    entretanto...


    Sexta feira dia 22 às 17 horas em Aveiro, na minha cidade, no Hotel Moliceiro tenho a minha primeira exposição de pintura.(22,23,24,25)
    Gostava de te ver aqui era um pazer grande...
    beijosssssssssssss

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  12. Sabe, Isabel, não há nada que desculpe a falta de colo que uma criança sente e para isso nenhuma mãe precisa de abdicar da carreira; o que ela precisa é de reparar que o seu filho tem medo de trovoada e de lhe dar colo e calma; o que ela precisa é de ir à caminha do filho dar-lhe o beijinho de boa noite e de lhe contar a historia de que tanto gosta; o que ela precisa é de arranjar 5 minutos para perguntar ao filho como correu o dia, como correu a escola. Criança precisa de muito pouco para ser feliz; infelizmente, há pais que pensam que os filhos querem roupa de maraca, telemóveis de última geraçaõ etc; claro.. se puder ser tuso eles querem, mas tenho a certeza que preferem o colinho. Quantas crianças vestidas de marcas dos pés à cabeça não sabem o que é um aconchego, um colinho? E quantas pobremente vestidas nos mostram um sorriso lindo de tanto colo que teem? E estas mães não trabalham?. Para mim, Isabel, os filhos teem prioridade e meia hora que se perca com eles não faz falta a pai nenhum. Um beijinho e parabéns pelo tema e pelo texto tão bem escrito. Uma bela Páscoa
    Emília

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  13. Querida Isabel

    Um texto profundamente humano e que retrata a loucura dos tempos que correm, a vida agitada da vida moderna. Não raras vezes acontecem casos parecidos em que a própria necessidade leva a que algumas mães não disponham do tempo ideal para acarinhar e dar o colinho devido aos filhos. Fala-se agora em tempo de qualidade. Será isso suficiente? Penso que ficará sempre alguma coisa por fazer, por exemplo, no dia X em que o filho(a) precisava desta ou aquela atenção e não aconteceu porque o tempo não dava para mais.A infância é um repositório de momentos felizes e do seu contrário. É extraordinário como os momentos menos felizes prevalecem.

    Desejo-lhe uma Boa Páscoa.

    Beijo.

    Olinda

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  14. Um texto tocante, pleno em verdades. Nada é mais importante, - nada pode ser maior do que a relação de amor entre mãe e filho. Esse amor que é proteção, luz e caminho, e que o tempo não consegue vencer.

    Perfeitos os versos de Mário de Sá Carneiro, Isabel!

    Obrigada, amiga, por pedir notícias de mamãe. Neste momento, ela está um pouco melhor. Um erro médico - remédios que, combinados, impuseram-lhe a pernas e braços uma rigidez parkinsoniana, e somado às limitações naturais da idade, vem lhe causando inúmeras dificuldades, inclusive depressão. Submete-se, por esta razão, a uma dieta especial, para tentar eliminar aquelas substâncias do organismo, e à fisioterapia. Temos, eu e toda família, muita esperança de vê-la novamente de pé, e bem.

    Bjs, querida Isabel. Inté!

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  15. Há erros que se pagam bem caros...
    Beijo d'anjo

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  16. Olá, Emília Pinto!
    Concordo com tudo o que diz. E se não há nada melhor para um filho, do que o colo de uma mãe, também não há nada melhor para uma mãe, do que o colo de um filho. Fica-nos sempre a saudade de um bébé no nosso colo.
    Um grande abraço e Santa Páscoa.

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  17. Querida Olinda:
    Creio que a Humanidade seria bem mais equilibrada se as mães tivessem todo o tempo do mundo para os filhos.
    Um abraço.

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  18. Querida Ju:
    Como me poderia esquecer de perguntar? É a sua Mãe.

    O tempo sempre a lutar contra nós! A eterna falta de tempo para os filhos!

    Um abração.

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  19. ISABEL
    Que tudo corra bem e recuperes depressa.
    Eu com operações neste momento estou de folga (à cerca de 2 anos que estou parada.)
    Tenho mais de 30 e fortes agora descansei um pouco...mas...estou com um problema grave num joelho e estou de baixa. Fracturei em Julho quase no fim do ano lectivo. foi um ano difícil em apoio em 5 escolas e ...o corpo não aguentou... agora os médicos estudam solução..
    Mas vai correr bem.
    A escrita e a pintura foram e são nesta fase, a minha terapia...

    PASCOA MUITO FELIZ...

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  20. Votos de uma Santa e feliz Páscoa com um beijinho amigo.

    Ana Martins

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  21. Isabel....quizás se me ha escapado algún matiz en cuanto a la escritura pero el fondo lo he entendido bien. Un auténtico dilema, si señor....pero, así c'est la vie.
    Mil estrellas de alegría
    Sherezade

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  22. Querida Isabel
    O teu texto povocou-me dois sentimentos antagónicos.
    Primeiro, uma grande raiva contra essa mãe que não deu ao filho o carinho de que ele tanto necessitava; depois, no final, uma grande pena por ela.
    Para mim a maternidade é sagrada. Eu seria incapaz de a sacrificar à vida profissional.
    Trabalhei fora de casa quando os meus filhos eram pequenos, mas sempre conciliei as duas coisas, de forma a que eles não saissem prejudicados por falta da minha atenção. Eles estavam (e continuam estando...) acima de tudo.
    Mas... perante o sofrimento e arrependimento dessa mulher, que tão bem descreves, não posso ficar indiferente. Ela passou a estar muito infeliz, e nem posso imaginar a dor de perder um filho! Por isso a minha raiva inicial se tranformou em lástima.
    É, infelizmente, um caso que não é tão raro como eu gostaria que fosse...

    E agora, se me dás licença...

    Eis a

    Minha mensagem de Páscoa:

    Permite-me que faça minhas as palavras de Einstein:

    "Algumas coisas são explicadas pela ciência, outras pela fé. A Páscoa ou Pessach é mais do que uma data, é mais do que ciência, é mais que fé, Páscoa é amor."

    Feliz Páscoa, com muito Amor.
    Beijinhos

    PS - As minhas postagens são ao domingo.

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  23. Desejo te uma Santa Pascoa:)
    Beijo d'anjo

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  24. Venho para retribuir votos afectuosos de serena e doce Páscoa!
    Depois de uma curta pausa, voltarei...

    Um beijo fraterno,

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  25. o seu texto para além de estar maravilhosamente bem escrito, com forte odor a poesia ...ilustra uma realidade pouco explorada...Quando uma mãe ou um pai se ausenta por motivos profissionais e quando abre os olhos para a realidade é tarde demais!!!Nada nem ninguém vai trazer um filho morto de volta...e essa dor é a mais pungente...o pior castigo que há...Uma dor sem tamanho...Nada pode estar à frente da família!!! Os negócios,os projectos....são para se levar a sério mas é preciso encontrar dentro da própria pessoa um lugar sagrado para os filhos e para os mais próximos...porque um dia pode mesmo ser irremediável!!!E não vale a pena esconder-se nos confins do mundo que a dor, o vazio da perda e os sentimentos de culpa vão fustigar sempre!!!

    ...então temos diálogo? É bom!Virei cá ler a suas respostas...

    Um beijo

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  26. Querida Pedras Nuas:
    Vejo que estamos em perfeita sintonia.
    Creio que a perda de um filho é efectivamente, como alguém já disse, a maior dor do mundo. Um filho é o nosso maior tesouro, e, como tal, deverá ser tratado. O filho tem de ser a nossa prioridade.
    Um abraço muito grande.

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  27. Boa tarde Isabel,
    Li o seu texto com os olhos rasos de água e um nó que aperta e dói na garganta. Tocou-me particularmente a sua sensibilidade, entendeu perfeitamente a mensagem do poema, embora ela não estivesse clara. Estamos em sintonia sim, Isabel.

    Beijinho e Feliz Dia da Mãe.
    Ana Martins

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  28. Querida Ana:

    É bom estarmos em sintonia.
    Obrigada e desejo que tenha tido um excelente dia da Mãe, se for Mãe.

    Um beijo.

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