quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A DOR DA VELHINHA

                                   


           Naquele final de tarde, a velhinha saíu à rua, vergada pelo peso dos seus 89 anos e consumida até às entranhas, pelas dores da artrite reumatóide que, não raro, a faziam almejar a morte como o melhor dos paliativos. Ademais, arrastava consigo toda a  angústia dos dramas com que a vida a vinha fustigando.

           Os cânticos de Natal ouviam-se em toda a parte. O esplendor das luzes multicolores e o brilho dos enfeites da quadra natalícia cobriam a cidade inteira com um véu de festa.   

           Todos a viver a azáfama própria do dia 24 de Dezembro nos países ocidentais de tradição cristã: correria e consumismo desenfreados nos preparativos para a consoada.

            A velhinha deteve-se a observar todo aquele bulício: casais com passo apressado, carregados de presentes de última hora, pais e avós com crianças pela mão ou em carrinhos de bebés, entrando em pastelarias e charcutarias, para comprarem sonhos, filhoses, fatias douradas, bolo-rei. O Pai-Natal à porta das lojas, acenando às criancinhas, com o propósito de seduzir as carteiras recheadas dos pais e dos avós…

            Apesar da vaga de frio polar que se fazia sentir e que a enregelava até aos ossos, a velhinha sentiu uma brisa morna a afagar-lhe a alma ao lembrar-se que também ela já vivera aquele feliz frenesim.

            Fôra há tantos anos, que a sua memória já só conseguia divisar essas imagens felizes através da densa neblina do tempo. Nessa altura tão recuada, tinha casado havia poucos anos, os seus quatro filhos ainda eram pequeninos - os dois do meio (um rapaz e uma rapariga) eram gémeos -, e viviam todos num doce lar onde reinava a saúde, o amor, a paz e a harmonia.

            Nesse tempo, ela ainda não era vítima dos maus tratos físicos e psíquicos que o marido lhe viria a infligir e que passariam a constituir uma realidade viva que ensombraria o seu matrimónio, arrastando-o anos a fio numa agonia sem fim à vista, que transformaria a alma dela num farrapo humano… Não obstante, recordava-se do marido com carinho. Um ano antes de a morte o levar, fôra-lhe diagnosticada a doença pulmonar obstrutiva crónica e, durante esse ano, fôra ela que, com a sua infinita bondade, lhe prestara todos os cuidados e que constituíra o melhor dos lenitivos para o sofrimento dele. Na véspera de partir, ele, a chorar como uma criança perdida, pedira-lhe perdão por tudo e, beijando-lhe ambas as mãos com os lábios gelados e descoloridos, dissera-lhe que ela era um anjo que tinha descido à Terra. Depois, limpando as lágrimas que molhavam os sulcos cansados da face dela, ainda acrescentara que a sua maior mágoa era já não ter tempo de lhe retribuir todo o bem que ela sempre lhe tinha feito.

              Esses Natais felizes que ela congregava agora na sua lembrança, também tinham ocorrido muito antes do desaparecimento da sua filha mais nova. Um dia, a menina de 14 anos de idade, tinha saído para ir a casa de uma amiga, à qual nunca chegaria, e não mais regressaria a casa… As buscas e demais investigações policiais nunca conduziriam a resultado algum.

              A incerteza e a dúvida geradas pelo desaparecimento da filha, constituíam a sua maior dor. Se ao menos soubesse que ela tinha falecido… Aí, sofreria como um cão, mas saberia que a sua menina estava em paz e poderia finalmente fazer o luto… Nada saber corroía-lhe o coração de mãe. A partir do desaparecimento da filha, passara a deambular no limbo. Era uma morta-viva. O seu maior pavor era morrer sem nunca ter chegado a saber o destino da filha.

                Esses Natais longínquos onde abundava a felicidade, tinham igualmente ocorrido bem antes da morte do seu filho mais velho como causa directa e necessária de uma “overdose” de cocaína, após anos de imersão no inferno das drogas.

                E também muito antes de um dos seus filhos do meio, um dos gémeos – o rapaz, ter sido preso em cumprimento de pena, na sequência de sucessivas condenações por crimes de condução de veículo em estado de embriaguez, encontrando-se agora a passar o Natal na prisão. O mesmo filho que apunhalava a sua alma de mãe de cada vez que, dirigindo-se ela ao estabelecimento prisional na esperança de poder beijar e afagar o seu menino, rejeitava terminantemente as visitas dela, não comparecendo na sala.

                Os Natais felizes também tinham fluído muito antes de a sua outra filha do meio – a menina gémea, ter partido para a Austrália com aquele que ela apelidara de “a grande paixão da minha vida”. Depois disso, raramente vinha a Portugal, telefonando escassíssimas vezes, e manifestando uma perfeita indiferença pela sorte da mãe.

                Os cânticos, as luzes e os enfeites de Natal surgiam agora como um ultraje à angústia da velhinha, uma profanação da sua dor e uma afronta ao seu sofrimento.

                Sempre fôra a chama viva da casa, mas agora, sentia-se prestes a apagar-se. Intuía que não chegaria ao Ano Novo, altura em que, no dia 1 de Janeiro, perfaria 90 anos de idade.

                 Para atenuar a dor da sua alma, provocada pela violência das vergastadas dos festejos de Natal, a velhinha saíu da artéria principal por onde caminhava, e passou a circular por uma travessa, onde o som dos cânticos chegava com menor intensidade e onde não eram visíveis as luzes nem os enfeites de Natal. Tentou estugar o passo para fugir de todos aqueles festejos dos outros, mas a artrite reumatóide não o consentiu.

                Nessa travessa, ao passar junto do “Centro de Atendimento de Toxicodependentes”, que ela tão bem conhecia dos tempos que tinham antecedido a morte do filho mais velho, sentiu uma enorme dor no peito e caíu nas pedras geladas da  calçada.

               Com toda a azáfama dos preparativos de Natal e o consequente entupimento do trânsito, a ambulância só chegaria volvidos trinta minutos.

               Nessa ocasião, já só o corpo inerte da velhinha se encontrava na calçada. A alma, essa já se tinha libertado do sofrimento de toda uma vida.                    

               O relatório de autópsia, após ter descrito a lesão dilacerante da velhinha - o esfacelo da sua alma -, referia nas conclusões médico-legais: “A morte de (…) foi devida à lesão da alma atrás descrita, causada por anos de solidão, sofrimento, angústia, afrontas, amor ao próximo não correspondido e falta de amparo familiar e social.

               Tal lesão constitui causa de morte violenta e é compatível com a informação constante do Historial de Vida de (...) a que tivemos acesso, no qual é abundantemente referida toda a dor que a família e a sociedade em geral, pelas suas acções e omissões, vinham causando à falecida ao longo dos anos.”

              Poucos foram, porém, os que tiveram acesso às conclusões médico-legais vindas de referir e, precisamente aqueles que deveriam ter reflectido sobre o seu teor, jamais as leram.

              Agora, a velhinha, sentada à direita de Deus-Pai, está feliz.

               Sabe finalmente o que aconteceu à filha mais nova, com quem já se fundiu num abraço eterno: raptada em seu dia por um pedófilo, este abusara dela e depois, tirara-lhe a vida e fizera desaparecer o cadáver.

               Também já se reencontrou com o filho mais velho, que falecera vítima de uma "overdose" de cocaína.

               Terá capacidade para iluminar o caminho do filho recluso.

                O marido terá todo o tempo do mundo para lhe fazer o bem de que a considera merecedora.

               E a filha gémea veio finalmente fazer-lhe uma visita; beijou-a, abraçou-a longamente e ofereceu-lhe flores antes de o corpo da mãe descer à terra.

                                                                                                           
 

                                                        Texto e foto da Isabel Maria.

domingo, 13 de novembro de 2011

MILAGRE DE NATAL

                                  

             Naquele Natal, a pequena Angélica tinha pedido uma prenda muito especial ao Menino Jesus: o milagre de voltar a estar com sua mãe que, uns meses antes, falecera vítima de doença prolongada. Queria que lhe fosse concedida a bênção de estar com sua mãe só mais um Natal, e afagar o rosto dela só mais uma vez, e outra ainda, e mais outra, e só mais uma...
             Veio-lhe à memória o sorriso doce da mãe, a prodigalizar-lhe todo o amor que brotava do seu coração gigante, o tom quente e o timbre aveludado de uma voz que semeava paz em seu redor, e a pele suave de umas mãos que lhe afagavam os caracois loiros quando ela se afundava num porto de abrigo ímpar: o colo de sua mãe.
              Uma vez mais, chorou convulsivamente, porque apesar dos seus 6 anos de idade, ela sabia que sua mãe havia partido numa manhã fria de Março para não mais voltar.
              E a chorar desesperadamente, a pequena Angélica adormeceu, enroscando-se tão profundamente no seu sono, como em outros dias se enroscara no colo de sua mãe.
              Do alto dos céus, descia agora uma melodia cantada por um coro de querubins. Pé ante pé, a mãe da pequena Angélica aproximou-se da cama da filha com o mesmo sorriso celestial de outrora, e, cobrindo-a com um manto de paz, pousou serenamente os lábios na face molhada dela, depositando nesse beijo o amor de toda uma vida que não lhe foi dado viver com a sua menina. Depois, pediu à pequena Angélica que não chorasse mais, porque ela iria estar presente naquele Natal e em todos os outros, como iria estar sempre presente em todos os momentos da vida de sua filha. Num frémito de amor e saudade, a pequena Angélica estendeu os bracitos roliços para envolver o pescoço de sua mãe e a apertar contra o peito. Foi então que das duas estrelinhas azuis que a mãe sempre trazia no olhar, se desprendeu uma copiosa chuva de estrelas que, congregando em seu redor, catadupas de cometas, acompanhou em cortejo o seu regresso ao céu. Mas antes de partir, a mãe da pequena Angélica depositou uma estrelinha na almofada da filha.
             Angélica acordou mergulhada numa neblina de tranquilidade espiritual. Ao ver a estrelinha que brilhava na almofada, acariciou-a e olhou para o Menino Jesus de terracota que sobre a mesinha de cabeceira, a observava com um sorriso de felicidade. Angélica devolveu-lhe o sorriso, e beijando-lhe a face rechonchuda, segredou-lhe: “Muito obrigada por este milagre de Natal!”.
             Quando naquela manhã de Natal, a pequena Angélica saíu do seu quarto e chegou à sala, foi com surpresa que o pai, ao dar-lhe dois beijos, notou no rosto da filha o renascer do sorriso de felicidade que desde uma manhã fria de Março tinha deixado de morar nela.
             A partir daquele dia, a pequena Angélica interiorizou uma certeza que lhe deu alento: do alto dos céus, sua mãe zelaria dia e noite pela sua existência, iluminando sempre o caminho da filha e lançando estrelinhas à sua passagem. Naquele Natal, a pequena Angélica ficou a saber que quando amamos verdadeiramente alguém, essa pessoa conquista o estatuto da imortalidade, vivendo para todo o sempre dentro de nós em jeito de rasto fulgurante que nos afaga a alma, fazendo da nossa vida uma permanente festa de Natal.

                                                                                                                Texto e fotografia: Isabel Maria.

domingo, 30 de outubro de 2011

O FILHO DA NADADORA


                                        
                                                
     Estava concentrada no seu posicionamento junto à parede interior da piscina, já que a sua partida iria ter lugar dentro da água.

      Puxou o corpo contra a parede, ao mesmo tempo que empurrou a borda com os pés, de molde a que o corpo se elevasse e os quadris saíssem da água.

      Dado o tiro de partida, mergulhou para trás.

      Nesta modalidade de crawl de costas, ela girava alternadamente os braços como autênticas hélices, efectuando vários batimentos de pernas durante um ciclo de braçadas completo.

          Logo nos primeiros metros da sua progressão dentro da água, reparou que entre a numerosa assistência da competição, se encontrava de novo aquele menino com caracóis castanhos e olhos de um azul ultramarino, sorrindo para ela, e gritando: “Força, Mamã! Força!”

          Assim que os olhos dela se fundiram nos dele e a luminosidade do olhar dele  penetrou na alma dela, a adrenalina da nadadora atingiu o seu ponto máximo e ela começou a nadar desenfreadamente até chegar ao fim da prova.

          O crawl de costas era o seu estilo de natação preferido, e nele ela era exímia, coordenando na perfeição os movimentos propulsores dos braços e das pernas, embora também fosse uma boa nadadora de crawl, bruços, mariposa, e da modalidade que reunia estes 4 estilos: Medley.

          Volvidos os primeiros 50 metros, a nadadora, para fazer a viragem, executou uma cambalhota de costas, seguida de uma rotação do corpo que a colocou novamente na posição dorsal. 

           Foi como um autêntico furacão dentro da água que nadou os restantes 450 metros da competição.

           Uma vez mais, conquistou a primeira posição, com grande vantagem em relação a todas as suas adversárias.

           Indubitavelmente, a presença do filho na assistência dava-lhe enorme alento e determinação para vencer.

           Terminada a prova, a nadadora olhou ansiosamente para o público, à procura do seu menino, como sempre fazia, embora soubesse de antemão que, nessa altura, ele já nunca lá se encontrava. Como sempre, também desta vez ele estivera presente durante o tempo em que sua mãe percorrera os 500 metros e, finda a prova, desaparecera. Gostava de permanecer nas bancadas o tempo necessário para lhe dar força e a ver vencer, e depois, desaparecia. Tinha sido sempre assim.

        Ao sair da água, a nadadora, sabedora que seu marido viria, como habitualmente, felicitá-la antes da cerimónia protocolar da entrega de medalhas, decidiu que, desta feita, não lhe iria contar que, durante a competição, seu filho estivera na assistência a transmitir-lhe coragem. Mortificava-a pensar que, de todas as vezes que, num êxtase sem par, contara ao marido que o filho lá tinha estado, ele, abraçando-a pela cintura, lhe dizia com o tom de voz meigo que o caracterizava:

         - Meu Amor: O que nós sentimos e sentiremos sempre, é uma dor inigualável. A perda de um filho é um drama irreparável, mas tens de começar a interiorizar que o nosso filho já não pode estar aqui, entre nós. Não nos podemos agarrar à temerária ilusão de que ele está na assistência… Tens de aceitar que o nosso menino partiu para junto de Deus e, nos céus, dar-te-á sempre muita força.

         De cada vez que o marido lhe arremessava à cara a cruel realidade da morte do seu menino, ela sentia o sangue gelar-lhe nas veias e tinha a sensação de que estava a ser lançada contra um iceberg, com o coração a partir-se em mil pedaços. Por isso, desabava irremediavelmente num pranto de vencida. Por que razão seu marido insistia em a desapossar da doce ilusão de que seu filho continuava a assistir na bancada às suas vitórias e a dar-lhe o alento de que ela necessitava? Teria seu marido o direito de fazer abortar a réstia de felicidade de uma mãe que continua a receber forças do seu filho de cada vez que entra numa competição desportiva? Que mal há em ter a ilusão de que ele continua lá? Não é esta alucinação de mãe, legítima? Ela sabia perfeitamente que o marido achava que esta sua visão era um sintoma de loucura. Por isso, nesse dia, decidiu que, doravante, não mais lhe contaria que, durante a prova, tinha visto o seu menino com caracóis castanhos e olhos de um azul ultramarino, entre o público, a dar-lhe a maior força do mundo. Ele jamais acreditaria.

         Antes da cerimónia protocolar da entrega de medalhas, o marido abeirou-se dela e deu-lhe um prolongado beijo, dizendo-lhe, como sempre lhe dizia, que estava muito orgulhoso dela. Depois, encostando-lhe os lábios ao ouvido, perguntou-lhe:

         - Hoje também viste o nosso menino?

         Teve de resistir para não deixar cair as suas forças e a sua determinação, para não desabar num pranto e não sucumbir à tentação de, uma vez mais, lhe contar a verdade - sim, o seu menino tinha lá estado -, mas prometera a si mesma que não daria azo a que seu marido, uma vez mais, a olhasse com o sorriso de compaixão que se oferece a alguém que está irremediavelmente à deriva na sua loucura.

         Cerrando os dentes, respondeu-lhe:

          - Não, hoje o nosso menino não estava lá.

          O marido sorriu, já não com o mesmo sorriso de compaixão, mas com um sorriso cheio de felicidade. Foi, então, que ele lhe segredou:

           - Minha Querida, como é que não o viste?! Eu vi-o! Ele esteve lá o tempo todo, a gritar “Força, Mamã! Força!”, e só se foi embora quando se certificou de que, uma vez mais, tinhas chegado em 1º lugar.

                                                                                                       

          Texto e foto: Isabel Maria.

       

          

         


      

sábado, 8 de outubro de 2011

UM PEDAÇO DO CÉU



Quando recebemos, um cometa ilumina o nosso rosto. Quando damos, uma chuva de cometas perfumados envolve o nosso coração.
Há uns dias, ofereci ao meu pai uma prenda que sabia que ele muito apreciaria.
Enquanto a encomenda ia a caminho, comuniquei-lhe que teria de abrir a porta ao emissário.
Surpreendido, o meu pai recusou terminantemente a oferta. Porém, insisti e perguntei-lhe: "É ou não uma boa prenda?" Do lado de lá, a resposta não se fez tardar: "É a melhor coisa que me podiam dizer agora." Eu respondi: "E essa é a melhor resposta que me podiam dar agora."
Senti-me imensamente feliz porque dei a alguém um pedaço do céu. São Francisco tinha razão quando dizia "(..) é dando que se recebe (...)".
Desliguei o telefone e fiquei a pensar como nos sentimos felizes quando desenhamos um sorriso no coração de alguém.
Naquele instante, recebi uma mão cheia de pérolas de felicidade.  

Texto e Foto: Isabel Maria.

sábado, 24 de setembro de 2011

"YOU´RE A LOVELY GIRL"



Setembro de 1987. Londres. Green Park.
Estava pela primeira vez na capital do império britânico. Sozinha. "All by myself".
Naquela manhã, dirigia-me a pé para Westminster Abbey.
Ao atravessar Green Park, parei e consultei o mapa da cidade.
Um velhinho que dava sementes aos pássaros, perguntou-me se me podia ajudar. A doçura do seu olhar fez-me lembrar o meu avô que, havia dois anos, vivia numa nuvem cor-de-rosa cheia de sol.
Depois de ele me ter explicado o melhor itinerário para a abadia, ficámos ali a conversar alguns minutos, inclusivé sobre o meu avô.
Aqueles minutos de conversa emoldurados com o carinho do olhar dele, souberam-me tão bem!
Na despedida, disse-me: "You´re a lovely girl. Take care."
E, naquela manhã fria de Setembro, senti o coração agasalhado com a ternura do velhinho e o afago daquelas palavras.
Não o voltei a ver, mas a minha primeira viagem a Londres ficaria para sempre marcada por aquele encontro. 

                                                                                       Texto e foto: Isabel Maria.

sábado, 17 de setembro de 2011

O NOME DELA



Detive-me junto da boneca que sempre se encontra sentada na cadeira do quarto.
Olhando para além dos olhos dela, vislumbrei o sorriso de Carmina, a fiel cozinheira da casa dos meus pais em Moçambique.
Carmina tinha a tez da cor do chocolate, trazia duas esmeraldas no olhar e era dona de  um sorriso que congregava constelações em seu redor.  A sua voz de veludo aconchegava-nos o coração. Tinha sempre uma palavra de conforto para todos e cada um de nós e era senhora de uma descrição e de uma sobriedade ímpares, para além de uma exímia cozinheira. Vivia em nossa casa e era uma excelente contadora de histórias de encantar.
Ah, Carmina! Como me lembro das histórias com que tornavas mágicos os meus serões! E como as tuas mãos eram macias quando me acariciavas o rosto e me dizias que era "a menininha mais bonita do Rovuma ao Maputo"!
Um dia, Carmina, voltámos para Portugal e tu ficaste em Moçambique.
Quando me despedi de ti, as tuas lágrimas e as minhas fundiram-se num abraço eterno. Ainda hoje te oiço a soluçar baixinho e sinto a pele macia do teu rosto no meu e as tuas lágrimas a deslizarem na minha cara, de mão dada com as minhas.
Na ocasião, ofereceste-me uma boneca da cor do chocolate e disseste-me que lhe tinhas pedido que cuidasse sempre de mim.
Trocámos cartas e telefonemas durante seis meses e, depois, tu partiste para junto dos anjos, porque a tua bondade não era deste mundo.
Nunca mais te voltei a ver, minha querida e doce Carmina, mas continuo a sentir-te num abraço eterno e a pele macia do teu rosto continua a afagar o meu. Agora sei que as lágrimas que sinto deslizarem na minha cara, são só as minhas, porque tu vives numa estrela do firmamento de África e o teu sorriso é a candeia do meu caminho.
A boneca, minha boa Carmina, vive comigo há décadas, e, tal como lhe pediste, tem cuidado sempre de mim. É a jóia que eu trouxe de África. Tem o perfume das tuas mãos e o nome dela é Carmina.
                                                                                                 
                                                                   Texto e foto da Isabel Maria

domingo, 4 de setembro de 2011

O TEMPO





Um astrónomo disse:  Mestre, que pensas do Tempo?
 

- Gostaríeis de medir o tempo, o infinito e o incomensurável. Gostaríeis de ajustar a vossa acção e até de orientar o curso do vosso espírito de acordo com as horas e com as estações. Gostaríeis de fazer do tempo um rio em cujas margens pudésseis sentar-vos a contemplar o seu curso.

No entanto, o infinito que há em vós tem consciência da eternidade da vida; e sabe que o presente é só memória do dia de ontem e que o amanhã é sonho do presente. E que aquilo que em vós canta e em vós contempla mora ainda nos limites daquele primeiro encontro que semeou as estrelas no espaço. Quem de vós não sente que o seu poder de amar é ilimitado? Quem não sente que esse autêntico  e verdadeiro amor, embora sem limites, e fechado no centro do seu ser, não se desloca de um sentimento de amor a outro sentimento de amor? E não é o tempo, como o amor, indivisível e imóvel?

Se no vosso pensamento tiverdes de medir o tempo em estações deixai que cada estação abrace todas as outras. E deixai que o dia de hoje abrace com saudade o passado, e o futuro com ansiosa esperança.


Khalil Gibran, " O Tempo", in "O Profeta", p. 43.

Foto (Perto do Tarrafal, na ilha de Santiago - Cabo Verde): Isabel Maria.

domingo, 28 de agosto de 2011

ASPIRAÇÃO




 
Quisera eu ser aquela estátua fria

Abandonada, só, mas que não sente,                  

Ou ser a branda aragem deste dia,

Ou um pedaço de oiro refulgente.



Quisera eu ser, até, a ventania

Condenada a gemer mas inconsciente.

Ou ser a dominante melodia

Das cordas de um violino...eternamente!



Quisera eu ser aquela asa de pomba,

prateada lua quando a noite tomba,

´Scaldante sol em tarde de Verão.



Ou viver, sem saber que estou vivendo,

Deixar que a vida vá assim correndo,

E não sentir que tenho um coração.



Maria Helena Cabral, in "Mulheres em Prosa e Verso",  vol. 4, 1ª edição - HOJE EDIÇÕES - Casca - RS - Brasil, pag. 63.

domingo, 21 de agosto de 2011

ONDE O CÉU BEIJA A TERRA

                            
       Na Ilha Terceira, percorremos caminhos orlados de mantos de hortênsias lilases, azuis, brancas e cor-de-rosa, para além das quais se estendem prados de um verde luminoso a perder de vista, onde nem o céu é o limite, e deparamos com bosques e lagoas que julgávamos já só existirem no nosso imaginário infantil.

       E neste passeio onde o silêncio só não reina porque a sinfonia dos pássaros é imperatriz, vislumbramos o sorriso dos anjos e sentimos que estamos num lugar onde o Céu beija a Terra.
       Então, sonhamos ficar ali para sempre, mas, quando acordamos, já estamos dentro de um avião que nos transporta de volta ao inferno das nossas vidas de trabalho.



                                                                                    


                                  Texto e Fotos: Isabel Maria.

domingo, 14 de agosto de 2011

O "PASSEIO DOS POETAS"


                   O "Passeio dos Poetas" consiste num conjunto de 32 painéis de azulejos referentes à literatura portuguesa e à cantiga à desgarrada, afixados em várias paredes das ruas da cidade terceirense da Praia da Vitória. Cada painel constitui uma homenagem a um escritor ou a um cantador português, contendo o seu nome, a sua fisionomia, e um excerto do que foi por ele  escrito,  cantado ou verbalizado.

                  Trata-se de uma iniciativa de um terceirense - o músico Luis Gil Bettencourt, que contou com a colaboração da Câmara Municipal da Praia da Vitória, sendo a pintura dos azulejos da autoria de um outro filho da terra - Ramiro Botelho, que a executou a partir de desenhos seus e de desenhos de Manuel Martins e de José Nuno da Câmara.

                  Percorrer a Praia da Vitória sob o olhar fraterno destes 32 artistas acarinhados pela terra que eles cantaram, é transportar para dentro da cidade, todas as estradas bordejadas de densos muros de hortênsias, e todos os bosques nunca antes imaginados, que há na ilha.

                  E quando o sol está a nascer, caminhar junto à baía da Praia da Vitória, de mão dada com tais personagens, é sentir que a vida é um poema que se desprende da brisa do amanhecer.






                  Texto e fotos (exemplos de painéis que compõem o "Passeio dos Poetas" - Praia da Vitória - Ilha Terceira - Açores) : Isabel Maria.

sábado, 23 de julho de 2011

Caríssimos:
Vou estar ausente uns dias.
Quando regressar, visitarei todos e cada um de vós.
Um grande abraço

domingo, 17 de julho de 2011

A POMBA BRANCA DO ROSSIO

                                           



    “Que é morrer senão erguer-se nu ao vento e fundir-se com o sol? Que é deixar de respirar senão libertar o corpo das incessantes marés para poder elevar-se e expandir-se na busca de Deus sem nenhum limite?” - Khalil Gibran, in “O Profeta”, pag. 54.


              Carregava consigo o peso da "maior dor do mundo". Era uma mulher cuja beleza não passava despercebida em parte alguma, mas os seus olhos cor de violeta que, nos tempos da Faculdade, a tinham celebrizado, valendo-lhe o cognome de “Elizabeth Taylor”, tinham perdido todo o brilho. Também a luminosidade que sempre irradiava do seu sorriso, tinha, há muito, deixado de ser uma realidade viva.

               Lera “A filha-sombra” de P.F.Thomése, e revia-se no estado de espírito do autor que tinha perdido a filha: “Tudo está congelado, tão frio e quieto torna-se. Tão frio que afasta todo o sentir. Tão quieto que a respiração congela nos lábios como um ponto de interrogação. Não acontece mais nada, “o momento que irrompe” está para sempre congelado.”

               O filho dela tinha 3 anos de idade, olhos cor de violeta e caracois loiros a emoldurar as bochechas rosadas de querubim. Uma criatura celestial. Talvez por pertencer ao Céu e não à Terra, Deus tinha-o chamado a si, à hora do crepúsculo, num dia de Setembro.

                Ela transformara-se, então, num ser afogado em tristeza.

                Não aguentando a angústia da perda do filho, fôra viver para Lisboa, abandonando Viseu que tantas recordações lhe trazia, pois era aqui que o seu menino despontava em cada esquina e que as suas gargalhadas eram audíveis em cada canto.

                Tinham fluído três longos anos de intensas sessões de psicoterapia, sem que, alguma vez, tivesse conseguido voltar à “Cidade Jardim” que vira nascer o seu menino.

                 Tinha gravada na memória a “Praça da República” de Viseu, vulgarmente designada por “Rossio”, onde tantas vezes tinha estado com seu filho pela mão, a dar milho aos pombos, enquanto ambos se abraçavam numa perfeita fusão de almas e ela lhe dava beijos que depositavam na face rechonchuda dele, todo o amor que enchia o seu coração de mãe.

                  Depois, atravessavam a rua e seguiam pelo passeio que acompanha o mural de azulejos de temática regionalista, que se situa a nascente do “Rossio” e se estende até ao “Jardim das Mães”. Neste jardim, por entre canteiros de buxos, rosas e lírios, seu filho detinha-se a contemplar o “Monumento às Mães” que se ergue no meio do jardim, com o menino a dormir no colo de sua mãe, “o melhor sono da nossa vida em que na nossa alma docemente penetra Deus”, como se lê na inscrição feita na base no monumento. O mesmo sono que o seu menino tantas vezes dormira no seu colo…

                  Agora tinha finalmente arranjado coragem. Voltara a Viseu em homenagem ao filho da terra, porque tinha interiorizado que, ao fugir do lugar onde ambos tinham sido felizes, estava a cristalizar o espírito dele nesse lugar, impedindo-o de usufruir da paz e liberdade eternas de que Deus o considerara merecedor.

                   No “Rossio” tudo permanecia igual a si próprio. Lá estavam o majestático e bem conservado edifício dos Paços do Concelho com o seu pórtico com cantaria, as tílias ancestrais a desafiar o céu, os bancos de jardim com tantas histórias para contar, e os pombos nos beirais, nos peitoris das janelas e nas varandas do edifício.

                    Recordava-se particularmente de uma pomba branca que sempre tinha vindo para junto deles, permanecendo a seus pés e comendo suavemente os grãos de milho nas mãos deles, fitando-os com infinita ternura.

                    Desta feita sozinha, acorreu a dar milho aos pombos, e verificou que a pomba branca veio posicionar-se a seus pés, com a ternura e a graciosidade de outros tempos. Poisara agora gentilmente no ombro dela, fitando-a com uma profunda tristeza no olhar. De mansinho, arrulhou com compaixão ao ouvido dela, afagando a sua alma enlutada de mãe. De seguida, levantou voo e, em jeito de apelo, não deixando nunca de a olhar com enorme  doçura, voou até ao “Jardim das Mães”, onde poisou na mão do menino que dormia no colo de sua mãe. Ela seguiu a pomba branca e entrou no “Jardim das Mães”. A pomba veio pousar de novo no ombro dela. Sentiu-se subitamente acariciada por uma enorme vaga de paz que a mergulhou numa neblina perfumada de tranquilidade espiritual.

                  Foi então que do firmamento se desprendeu uma vigorosa chuva de cometas e uma melodia cantada por pequenos anjos.

                   Compreendeu que o seu menino podia finalmente dormir o sono celestial e viver a paz eterna, porque ela tinha desapertado as amarras que o eternizavam num só lugar. Seu filho era agora um espírito com luz própria, livre de voar para onde as asas de Deus o levassem.



Texto e fotografias ("Jardim das Mães" - "Monumento às Mães", em Viseu) da Isabel Maria.

domingo, 3 de julho de 2011

O BEIJO DE JESUS

            

           Durante a missa na Igreja de Nossa Senhora da Graça, na cidade da Praia - ilha de Santiago - arquipélago de Cabo-Verde, Catarina estava embevecida a ouvir a percussão dos tambores, quando constatou que Jesus era um dos percussionistas. E percutia o tambor com uma serena vitalidade que todos inundava com uma paz celestial. Ela estava em êxtase, a vê-Lo e a ouvi-Lo. E quando Jesus, com o seu olhar divino, tocou a alma dela, ela levantou-se e foi até junto dele, sem nunca deixar de olhar para além dos olhos Dele. Uns olhos cristalinos como a água de uma nascente no paraíso. Do olhar Dele fluíam agora estrelinhas que deixavam deslizar no ar um suave perfume dos céus. Quando ela se abeirou Dele, Jesus sorriu-lhe, ergueu-se e, impondo-lhe as mãos, abençoou-a com o sinal da cruz, após o que lhe ofertou um beijo na testa. Posto isto, segredou-lhe que ela não se devia coibir de dançar se a tal o desejo a impelia, e, voltando a sentar-se, continuou a percutir o tambor. Então, ali, à beira de Jesus, ela entregou o corpo à percussão dos tambores e extravasou freneticamente toda a energia que havia nela, abrindo as comportas das suas mais maravilhosas emoções. Dançou feliz e desinibida como nunca na vida havia dançado. Tamanha vitalidade e alegria só lhe podiam ter sido emprestadas pelo Divino. Jesus sorria feliz ao assistir a todo aquele vigor e a toda aquela libertação. Depois, esvoaçando numa nuvem de lírios brancos, Catarina retomou o seu lugar na assembleia dos fieis.

           Foi, então, que acordou no Hotel Pestana Trópico, onde, naquele mês de Agosto, a cidade da Praia a acolhia, e bem assim ao filho de 12 anos de idade, para uns dias de descanso.

           Recordou-se que, naquele domingo, de manhã, se tinham deslocado ao centro da cidade, que corresponde à Praça Alexandre Albuquerque, à volta da qual se encontram a Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Graça, o Tribunal e a Câmara Municipal, e que tinham ido à missa na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Graça.

           Pedro, o filho, entrou na igreja contrariado, como sempre. A missa sempre o aborrecera e constituía para ele uma forma acabada de saturação e de perda de tempo.

           Todavia, naquele domingo, a igreja e a celebração da eucaristia viriam a constituír para ele uma agradabilíssima surpresa.

           Desde logo, a igreja tinha janelas e, quer a porta principal ou da fachada, quer as portas laterais, se encontravam abertas, o que permitia não só a entrada da luz do sol, como a circulação do ar. Quase como se se estivesse numa missa campal. Tudo tão diferente das igrejas católicas  portuguesas onde a mãe, ao domingo, o levava à missa, e que eram escuras, sombrias, ao jeito das catacumbas romanas, como se o lugar de recolhimento espiritual e de oração tivesse de ser um lugar mergulhado na penumbra. No interior da igreja, ouvia-se, vinda das frondosas copas das árvores da praça, a alegre chilreada dos passarinhos que, naquela manhã, ali se encontravam, em congregação com os homens, para celebrar o Dia do Senhor. A missa tinha partes cantadas, tal como sucede nas missas católicas do nosso Portugal, mas ali os cânticos desciam dos céus. Havia um coro com vozes ímpares no balcão da igreja, que se situava no piso superior àquele onde estava a assembleia dos fieis. Os elementos do coro cantavam com uma alegria divina, como se todas as estrelas do firmamento, em comunhão de vontades, ali estivessem para iluminar o seu espírito. Junto do coro havia percussionistas que aplicavam batidas em tambores, emprestando à celebração um ritmo de colorido festim. Esta mágica harmonia das vozes com a percussão dos tambores, inundava os fieis com uma paz vinda do céu.

          Para Pedro e Catarina foi muito difícil resistirem à tentação de dançar  freneticamente, acompanhando o ritmo das vozes e dos tambores, pois a alegria contagiante da celebração a tal os impelia. 

          Também a assembleia dos fieis, com as suas vestes domingueiras, cantava com um timbre radioso e com estrelinhas no olhar.

          E uma missa assim, tão cheia de ritmo, de alegria e de paz, convoca todos os mortais, mesmo os renitentes, como Pedro, nada tendo a ver com as missas da Europa que, em alguns casos, se assemelham, pelo seu ar pesado e soturno, a missas de requiem.

          Tanto assim, que, durante a cerimónia, Pedro segredou à mãe:

          - Bué fixe esta missa, mãe! Se as de Portugal fossem assim, nem precisavas de me obrigar a ir à missa. Aqui, a missa é uma festa!

          Sorrindo, a mãe respondeu que certamente o céu estava em festa e que todos os anjos e santos estavam a dançar e a cantar em torno de Deus Pai e da Virgem Maria, e essa festa estava a iluminar Jesus e a sua percussão do tambor.

          E recordou as missas nas quais participara na cidade moçambicana de Nampula, na década de 70. Também aí a igreja era iluminada pela luz do sol que entrava pelas janelas e pelos vitrais, e respirava-se uma alegria contagiante. Ao tempo, os cânticos eram acompanhados à guitarra e cantavam-se letras religiosas com a música “Butterfly”, canção que, nessa década, tanto furor fazia pela voz de Danyel Gerard, e da qual havia versões em alemão, inglês, francês e espanhol. Também em Nampula era um prazer ir à missa.

           Terminada a missa na Igreja de Nossa Senhora da Graça, Catarina e o filho tinham tomado um táxi para o Hotel Pestana Trópico.

           Catarina trazia com ela uma inaudita sensação de paz espiritual e uma alegria transcendental.

          Tinham almoçado no restaurante do hotel – uma Katxupa que se revelara uma iguaria de deuses, e, depois do almoço, Catarina fôra dormir a sesta. Então, tinha tido o privilégio tão único quanto inexcedível e inolvidável, de estar com Jesus na Igreja de Nossa Senhora da Graça. Por isso, o acordar revelava-se, agora, para ela, uma tremenda desilusão, porque, afinal, o beijo de Jesus e a percussão do tambor por este, não tinham passado de um maravilhoso sonho.

          Só que, contrariamente àquilo que Catarina pensou, Jesus tinha, seguramente, estado, de manhã,  na igreja de nossa Senhora da Graça, a percutir tambor e tinha-lhe dado um beijo celestial na testa. E com certeza que ela tinha dançado freneticamente até as pernas lhe desfalecerem, perante o sorriso de divina felicidade de Jesus, enquanto Ele percutia o tambor. Não tinha ela saído da igreja com uma paz de espírito ímpar e uma felicidade que nunca antes havia alcançado, certa de que, em África, há uma alegria mágica na forma como se celebra Deus?

          Ir à missa em África é uma devoção. Surpreendentemente, é nestas terras fustigadas pela fome, pelas doenças e pela falta de condições em geral, que a celebração eucarística ganha uma outra dimensão. À volta de Deus em África há, sem dúvida, uma alegria incomensuravelmente maior do que à volta de Deus na Europa. Em África, há uma outra forma de celebrar Deus. Porque África está imbuída de magia divina!


                     Texto e fotografia (Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Graça - Cidade da Praia - Ilha de Santiago - Cabo Verde) : Isabel Maria.

domingo, 26 de junho de 2011

UMA RÉSTIA DE SOL NO NOSSO ENTARDECER



A casa está toda iluminada pela paz.

Do piano brotam "Cachoeiras da Serra Op 13, nº 4", de Luiz Costa, tocadas por ti.

Ah, se tu soubesses como o céu beija a terra quando tocas piano!

Lembro-me de ti, tão pequenino, a tocares, mesmo ainda antes de entrares para a escola, com camisa e laçarote, nas audições do Conservatório. Eras tão gracioso! Olhava para ti com o mesmo enleio com que olho hoje, apesar de, agora, já não usares laçarote.

Como cresceste! Não obstante, quando tocas, vejo sempre aquele meu menino pequenino que mal chegava ao piano e que, com as mãozitas, acariciava o teclado, do qual fluíam melodias executadas por querubins.

O mesmo menino que, todas as noites, quando transmitiam na televisão "O Patinho - Todos os Patinhos", saltava para o meu colo, para juntos ouvirmos : "Todos os patinhos acabam de brincar,/ acabam de brincar,/os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar/ os pijamas vão vestir e os dentes vão lavar,/ É que a esta hora, é a hora de ir dormir,/é a hora de ir dormir,/ mas ainda há tempo para uma história ouvir,/ mas ainda há tempo para uma história ouvir,/pais, mães ou avós à cama lhes vão dar, /à cama lhes vão dar/um beijo de boa noite e a luz apagar./ um beijo de boa noite e a luz apagar."

Depois, o papá ia à tua cama e contava-te uma história. E tu ficavas embevecido com a "A Menina do Mar" e "O Rapaz de Bronze". E eu sentia o sorriso feliz da Sophia, escutando, também ela deliciada, as histórias.

Lembro-me como também te regalavas com a "A Trança de Oiro e os Três ursinhos" que eu te contava, e que embalavam o teu sono.

Eu e o papá temos muito, muito, muito orgulho em ti. Continuas a ser o nosso menino pequenino, a par do nosso outro menino pequenino: o teu irmão. Sentimos o nosso coração aconchegado por um manto de luz divina por seres um aluno dedicado aos estudos, teres uma boa formação moral, um coração do tamanho do mundo, um sentido de humor inteligente e teres sabido encontrar o teu caminho.

Sabemos que, muito em breve, irás para a Universidade e que não mais te teremos aqui todos os dias. Vamos sentir tanto a tua falta! E o teu irmão também. (Se visses a tola da tua Mamã a chorar agora... Se soubesses como ela chora de cada vez que se lembra que isso está na iminência de acontecer...)

Ganharás as tuas asas, constituírás família. Mas tu e os teus terão sempre aqui um ninho, um porto-de-abrigo, com as estrelinhas esvoaçantes, multicolores e perfumadas, que aqui semeaste.

Do piano desprender-se-ão "Cachoeiras da Serra", mesmo na tua ausência, e serás sempre uma réstia de sol no nosso entardecer.

                                                     Texto e fotografia da Isabel Maria.



                                                     

domingo, 19 de junho de 2011

NO POENTE DO MEU OLHAR


                     Naquele entardecer, corrias à beira-mar como um cavalo à solta. Ágil, veloz, com pernas compridas, possantes, da cor do chocolate.
                    Eu, hipnotizada, a fixar os teus pés estilizados, castanhos, que rasgavam o manto branco rendilhado das ondas na areia.
                     Ao passares à minha frente, olhaste para mim e sorriste. Um sorriso de garoto, de homem, de Deus. Um sorriso imortal. Um mar de constelações no teu olhar.
                     Ah, como o teu sorriso me embriagou! 
                     No dia seguinte, à mesma hora, acorri àquela praia.
                     Não te vi...
                     Nos dias que se seguiram, voltei sempre à mesma praia, ao entardecer.
                     Nunca mais te voltei a ver...
                     Ah, homem! Foi há tantos anos! Existirias realmente, ou terás sido uma miragem divina no poente do meu olhar?


Texto e foto da Isabel Maria.