Domingo, 18 de Março de 2012

O ABRAÇO DE ÁFRICA

                   
                                      

              Há cerca de três anos, comecei a ouvir, online e em directo, estações de rádio do Maputo. Uma dessas estações emissoras é a "Rádio Moçambique - Antena Nacional", de cuja grelha faz parte um programa de músicas moçambicanas pedidas e dedicadas, via telefónica, pelos ouvintes, no qual gosto de participar.

              Quando comecei a ser ouvinte desse programa, entre os funcionários que faziam a triagem dos ouvintes antes de estes entrarem no ar, contava-se Carmina Tete.

              Quando me recebeu pela primeira vez, deu-me as boas vindas com uma voz tão alegre, que logo me cativou. Conversámos durante uns breves instantes, até que ela me disse: "Vai entrar no ar agora."

              Na vez seguinte em que fui por ela acolhida, ouvi-a exclamar, entusiasmada, do lado de lá: "Olha! É ela!" E a espontaneidade, a jovialidade, a alegria e o afecto com que ela pronunciou estas palavras, fizeram-me gostar ainda mais dela.

              Nesse dia, adoptámos como saudação um grito de alegria emitido por cada uma de nós. E, desde então, cada vez que nos cumprimentávamos, um raio de luz partia do Maputo, trespassava Moçambique, afagando à sua passagem as cores, os cheiros e os sons da savana moçambicana, transportando-os até Portugal, ao mesmo tempo que um outro raio de luz partia deste cantinho da Europa, imbuído com todo o meu amor por Moçambique, trespassava África e chegava ao Maputo.  

               Entretanto, Carmina Tete reformou-se. Apesar de já não se encontrar na "Rádio Moçambique", continua a residir no Maputo, e nunca perdemos o contacto telefónico uma com a outra.

               Sempre que nos saudamos, continua a haver um raio de luz que, partindo do Maputo, trespassa Moçambique, afagando as cores, os cheiros e os sons da savana moçambicana, transportando-os consigo até Portugal, ao mesmo tempo que um outro raio de luz parte de Portugal, imbuído com todo o meu amor por Moçambique, trespassa África e chega ao Maputo. 

               E quando esses dois raios de luz se fundem, sentamo-nos as duas a conversar num terraço com vista para o Índico. O Índico que é dela, mas que ela autoriza que eu também chame meu, porque sabe que o Índico pertence a quem o traz no coração. E enquanto conversamos e saboreamos suculentas mangas, admiro as acácias rubras e os jacarandás lilases das avenidas do Maputo. E, mais ao longe, vislumbro uma nuvem dourada a pairar sobre Xai-Xai, a cidade-natal de Carmina, e, a uma distância muito maior, ainda consigo avistar uma nuvem cor-de-rosa a flutuar sobre Nampula, a cidade da minha meninice, a minha Nampula. Então,  as duas nuvens correm ao encontro uma da outra e fundem-se num abraço eterno: o abraço de África.

               Um dia, minha Querida Carmina, havemos de nos encontrar no Maputo. E, então, dois raios de luz trespassarão Moçambique do Maputo ao Rovuma, e afagarão à sua passagem, as cores, os cheiros e os sons da savana de Moçambique, após o que regressarão ao Maputo, vindo depositar nas nossas mãos o coração de África, mostrando ao mundo que a verdadeira amizade não conhece cores de pele nem está dividida por continentes. 


                                                                     Texto e Registo Fotográfico da Isabel Maria

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

O FEITIÇO DO ÍNDICO



         
              Ao entardecer, nessa hora dos mágicos eventos, Maria Nampula caminhava pela fina areia branca da praia de Fernão Veloso. O seu andar era uma valsa abrilhantada pelo trinar das aves e o rebentar das ondas que estendiam um manto rendilhado a seus pés.
              Mulher alta, com porte de gazela, a sua pele da cor do chocolate  contrastava vivamente com as duas esmeraldas que trazia no olhar.
              Os pés eram finos e compridos, quais pés de Cristo, e marcavam um passo suave mas decidido. Inabalável. Como inabalável se revelara o diagnóstico que, numa tarde fria de Junho, lhe havia sido arremessado: carcinoma ductal invasivo, que requereria uma mastectomia radical modificada e um cortejo de terapias adjuvantes: quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia, das quais se mantinha esta última, que consistia na ingestão diária de um comprimido de “Tamoxan" 20.
               Após a ablação do seio esquerdo, continuava linda, com uma elegância que não passava despercebida em parte alguma, e enquanto não era chegada a hora de se submeter a uma mamaplastia, a falta anatómica era sábia e suavemente disfarçada com uma prótese de silicone introduzida na bolsa da copa do soutien, prótese essa cujo peso e volume eram muito próximos dos do seio que Deus lhe tinha permitido conservar.
               Olhou para lá da linha do horizonte. Uma lágrima teimosa soltou-se das esmeraldas que trazia no olhar e deslizou como um fio de prata pelo seu rosto, tornando ainda mais brilhante a expressão do seu olhar.
               Um ano antes, um neurocirurgião paquistanês chegado ao Maputo para coordenar uma série de acções de formação sobre o aneurisma intracraniano, tinha-lhe sido apresentado num cocktail na Ilha de Inhaca e depressa se convertera no seu amigo de eleição e confidente e, depois, no seu noivo e amante. Tinha sido ele quem lhe tinha dado alento nessa fase difícil, fazendo-a emergir dos destroços em que a doença a prostrara.
                Na véspera da festa em que iria pedir a sua mão, sucumbira às mãos de um acidente vascular cerebral.
                Havia dois meses e, desde então, ela vestia a alma de luto, mesmo quando, como naquela tarde, envergava um vestido de cor encarnada, o preferido dele.
               Recordou uma vez mais, e outra, e outra ainda, e mais outra, a pele dele da cor da canela, com cheiro a âmbar, o corpo musculado, as gargalhadas vigorosas que dele se desprendiam, as mãos com que a afagava. Aquele olhar penetrante que colocava o corpo dela ao rubro num frémito de desejo.
                Todos os dias, ao fim da tarde, ela caminhava na fina areia branca da Praia de Fernão Veloso e banhava-se no Índico, pois acreditava que a força viva das águas onde, àquela mesma hora, ele a abraçara e beijara vezes sem conta, haveria de o trazer de volta.
                Naquele final de tarde, avançou mar adentro, atraída por um chamamento divino. Da crista de uma onda emergiu um cavalo alado branco montado por um musculado homem moreno que, com o olhar inundado de embevecimento, avançou na direcção de Maria Nampula, tomou-lhe suavemente a mão e sentou-a no seu colo,  afagando-a e beijando-a sempre. Dela emanava um sorriso de inexcedível felicidade, e, ao som de uma melodia cantada por querubins, o cavalo correu sobre as águas, até que desapareceu para lá da linha do horizonte, deixando atrás de si um raio de luz e uma abóbada de estrelas.
                  No dia seguinte, quando o corpo da mulher deu à praia, “Carapinha Tonta”, o rapazinho com oligofrenia moderada que, em cada final de tarde, se sentava na praia só para ver passar Maria Nampula, contou aos orgãos de polícia criminal e à comunicação social que a mulher tinha corrido mar adentro até desaparecer para todo o sempre no âmago de uma onda mais violenta.
                  Quando lhe perguntaram porque é que não tinha ido buscar socorros na hora, respondeu que não tinha conseguido desviar o olhar de um raio de luz e de uma abóbada de estrelas que se tinham desprendido das águas no momento do desaparecimento dela, e que esse raio de luz, num primeiro momento, o encandeara, para, logo de seguida, o hipnotizar e lhe paralisar as pernas, só tendo voltado a conseguir andar ao acordar, na manhã seguinte, com as ondas a lavarem-lhe os pés e o sorriso dela a quebrar, por alguns instantes, a linha do horizonte.                 
                    É por isso que ainda hoje, ao fim da tarde, na praia de Fernão Veloso, os turistas gostam de se sentar na fina areia branca, com o mar a cantar a seus pés, a apreciar o raio de luz e a catadupa de estrelas que, lá muito ao longe, junto da linha do horizonte, se desprende das águas. É nessa altura que, diz-se, o neurocirurgião paquistanês vem buscar Maria Nampula e ambos se fundem numa só vibração de alma, da qual emergem as estrelas que são um regalo para os turistas. É também nesses finais de tarde que “Carapinha Tonta” recolhe moedas de turistas ávidos de histórias de encantar, em troca do seu depoimento privilegiado de testemunha presencial da última passagem de Maria Nampula na Praia de Fernão Veloso e da sua fusão, num final de tarde, com o neurocirurgião paquistanês que voltou só para a vir buscar. 


                                      Reedição de um texto meu outrora publicado neste blog.
                                             Registo fotográfico de um quadro que é uma aquisição minha e que está assinado por Y. Demi.

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

A CHUVA DANÇOU COM ELA


                   Chovia ferozmente em Nampula, como sempre acontece na estação das chuvas.

                   Chuva que começa por nos afagar de mansinho a face, para, logo de seguida, nos sacudir o espírito e nos lavar a alma, numa inebriante sensação de paz que se desprende da lassidão quente da terra fecundada pela raiva das águas.

                   Inês tinha gravada na memória, a visão da sua pele de chocolate doce, acariciada pela chuva, à qual ela sempre se expunha irresistivelmente, qual rosa de ébano desabrochando às mãos de uma divindade. Quando chovia, até o sangue negro que lhe corria nas veias, clareava, o corpinho de menina tornava-se ainda mais ágil, e do sorriso que sempre lhe era fácil, irradiava agora uma luz tão suavemente intensa, que inundava África inteira de uma paz sem par.

                    Depois de cada dilúvio com que o jardim que a vira nascer era presenteado, Inês corria cheia de vigor, em acção de graças, para debaixo do velho embondeiro, tão imenso como a sombra que dava quando o sol flamejava, e em cujo tronco ancestral, havia um buraco em forma de gruta, onde ela acreditava que vivia um deus negro que a protegia e lhe dava a bênção das chuvas.

                     A menina corria e saltitava impulsionada pelo frenesim da chuva e tudo era festivo na sua vida. Em África a vida é uma festa! Para mais, quando se é criança e o sol celestial nos aquece o espírito e a chuva divina nos dá alento, enquanto nos soltamos em machambas verdes a perder de vista, onde nem o céu é o limite.

                    Mas a festa da vida terminou num dia de chuva em 1973, quando Inês foi obrigada a abandonar a sua terra natal, mercê da guerra colonial que avassalava Moçambique. Nessa manhã cinzenta, Inês foi impiedosamente expulsa da sua África - Mãe, como um feto supliciado, arrancado a esfacelamento das entranhas do ventre materno.

                     Para trás, ficavam os fins-de-semana na praia de Fernão Veloso, os Natais na Ilha de Moçambique, o mês de Janeiro das férias grandes na Ilha de Inhaca, como para trás ficava o voo dos flamingos que, bailando em seu redor, à beira-mar, vinham render-se a seus pés, numa homenagem àquela cujas gargalhadinhas angelicais ainda hoje ecoam naquelas paragens do Índico.

                    Para trás, ficava Lichinga, onde Inês visitava a Avó Paula que sempre lhe contava intermináveis histórias enquanto a abrigava e afagava no seu colo, apaziguando, assim, a dor da menina que nunca conhecera sua mãe, porque esta, para a ver nascer, tivera de partir.

                   Também em Lichinga ficava para sempre o cortejo de mainatos de sua avó, os quais tinham baptizado Inês com o nome de “Princesa do Niassa”.

                   Não mais voltaria a Mocimboa da Praia, onde seu pai gostava de visitar o governador de Nampula no seu retiro de fins-de-semana, e onde os habitantes locais comentavam que Inês era a “menininha” mais bonita do Rovuma ao Maputo.

                   Para trás, ficavam aquelas pérolas cinzentas escuras que, estonteadas, dançavam nos olhos do mainato mais novo de sua casa, de cada vez que olhava para Inês. 

                   No final da vida, Inês sofria desesperadamente a ausência das quedas de água que generosamente ganhavam corpo no jardim da sua infância todas as vezes que chovia.

                   Já na fase terminal do cancro que a condenou, Inês quis voltar ao Olimpo de Nampula, às suas chuvas e ao velho embondeiro, de que se havia despedido trinta anos atrás. Acreditava que o mal que lhe minava o corpo, seria eliminado pela força redentora das chuvas de Nampula que caíam sempre com vigor virginal.       

                    Quando chegou, em plena estação das chuvas, não caía nem uma gota de água. Mesmo assim, não perdeu a esperança - não era aquela a terra das chuvas? - e regressou ao seu embondeiro de sempre, agora em passo suave, porque o seu vigor físico já não conseguia acompanhar o frémito da sua alma.

                    Inês sentou-se debaixo da velha árvore, abraçada pelo deus negro da gruta. De repente, começou a chover ferozmente. Em breve, a chuva deu lugar a uma tempestade tropical. Inês levantou-se e, com uma expressão de enleio supremo, começou a dançar à volta do embondeiro, com os olhos apontados para o céu, para receber directamente na sua face de ébano, a fertilidade da chuva de África. A trovoada emudeceu em homenagem à filha da terra e a chuva fez-se serena só para ela. Numa simbiose perfeita entre a vida humana e a natureza, a chuva entendeu que deveria acompanhar o ritmo de alguém que já só conseguia deslizar. Ternurenta, a chuva dançou com ela tomando-a pela cintura, e acariciou-lhe uma última vez a face de ébano, perfumando-lhe a alma.

                     Terminada a dança, Inês, saciada, foi de novo sentar-se debaixo do embondeiro, onde a esperava o seu deus africano que, beijando-lhe suavemente a testa, lhe ofertou um sorriso sem mácula, do qual se desprendeu um subtil eflúvio de terra purificada. Inês sorriu, e sentada, partiu feliz.

                       Reza a lenda que, de cada vez que chove copiosamente em Nampula, emerge da terra molhada, sob o velho embondeiro, uma gentil figura de senhora que, com o rosto de ébano completamente iluminado, sorri invadida por uma paz que não é deste mundo, e que, de seguida, se levanta e dança com a chuva, amainando-a, até que se senta debaixo da árvore e, sempre sorrindo, regressa à terra molhada de onde desabrochou.

                                                                    Texto e fotografia da Isabel Maria. Republicação do texto com que, em Dezembro de 2010, foi inaugurado este blog.
                                            

                               

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

A DOR DA VELHINHA

                                   


           Naquele final de tarde, a velhinha saíu à rua, vergada pelo peso dos seus 89 anos e consumida até às entranhas, pelas dores da artrite reumatóide que, não raro, a faziam almejar a morte como o melhor dos paliativos. Ademais, arrastava consigo toda a  angústia dos dramas com que a vida a vinha fustigando.

           Os cânticos de Natal ouviam-se em toda a parte. O esplendor das luzes multicolores e o brilho dos enfeites da quadra natalícia cobriam a cidade inteira com um véu de festa.   

           Todos a viver a azáfama própria do dia 24 de Dezembro nos países ocidentais de tradição cristã: correria e consumismo desenfreados nos preparativos para a consoada.

            A velhinha deteve-se a observar todo aquele bulício: casais com passo apressado, carregados de presentes de última hora, pais e avós com crianças pela mão ou em carrinhos de bebés, entrando em pastelarias e charcutarias, para comprarem sonhos, filhoses, fatias douradas, bolo-rei. O Pai-Natal à porta das lojas, acenando às criancinhas, com o propósito de seduzir as carteiras recheadas dos pais e dos avós…

            Apesar da vaga de frio polar que se fazia sentir e que a enregelava até aos ossos, a velhinha sentiu uma brisa morna a afagar-lhe a alma ao lembrar-se que também ela já vivera aquele feliz frenesim.

            Fôra há tantos anos, que a sua memória já só conseguia divisar essas imagens felizes através da densa neblina do tempo. Nessa altura tão recuada, tinha casado havia poucos anos, os seus quatro filhos ainda eram pequeninos - os dois do meio (um rapaz e uma rapariga) eram gémeos -, e viviam todos num doce lar onde reinava a saúde, o amor, a paz e a harmonia.

            Nesse tempo, ela ainda não era vítima dos maus tratos físicos e psíquicos que o marido lhe viria a infligir e que passariam a constituir uma realidade viva que ensombraria o seu matrimónio, arrastando-o anos a fio numa agonia sem fim à vista, que transformaria a alma dela num farrapo humano… Não obstante, recordava-se do marido com carinho. Um ano antes de a morte o levar, fôra-lhe diagnosticada a doença pulmonar obstrutiva crónica e, durante esse ano, fôra ela que, com a sua infinita bondade, lhe prestara todos os cuidados e que constituíra o melhor dos lenitivos para o sofrimento dele. Na véspera de partir, ele, a chorar como uma criança perdida, pedira-lhe perdão por tudo e, beijando-lhe ambas as mãos com os lábios gelados e descoloridos, dissera-lhe que ela era um anjo que tinha descido à Terra. Depois, limpando as lágrimas que molhavam os sulcos cansados da face dela, ainda acrescentara que a sua maior mágoa era já não ter tempo de lhe retribuir todo o bem que ela sempre lhe tinha feito.

              Esses Natais felizes que ela congregava agora na sua lembrança, também tinham ocorrido muito antes do desaparecimento da sua filha mais nova. Um dia, a menina de 14 anos de idade, tinha saído para ir a casa de uma amiga, à qual nunca chegaria, e não mais regressaria a casa… As buscas e demais investigações policiais nunca conduziriam a resultado algum.

              A incerteza e a dúvida geradas pelo desaparecimento da filha, constituíam a sua maior dor. Se ao menos soubesse que ela tinha falecido… Aí, sofreria como um cão, mas saberia que a sua menina estava em paz e poderia finalmente fazer o luto… Nada saber corroía-lhe o coração de mãe. A partir do desaparecimento da filha, passara a deambular no limbo. Era uma morta-viva. O seu maior pavor era morrer sem nunca ter chegado a saber o destino da filha.

                Esses Natais longínquos onde abundava a felicidade, tinham igualmente ocorrido bem antes da morte do seu filho mais velho como causa directa e necessária de uma “overdose” de cocaína, após anos de imersão no inferno das drogas.

                E também muito antes de um dos seus filhos do meio, um dos gémeos – o rapaz, ter sido preso em cumprimento de pena, na sequência de sucessivas condenações por crimes de condução de veículo em estado de embriaguez, encontrando-se agora a passar o Natal na prisão. O mesmo filho que apunhalava a sua alma de mãe de cada vez que, dirigindo-se ela ao estabelecimento prisional na esperança de poder beijar e afagar o seu menino, rejeitava terminantemente as visitas dela, não comparecendo na sala.

                Os Natais felizes também tinham fluído muito antes de a sua outra filha do meio – a menina gémea, ter partido para a Austrália com aquele que ela apelidara de “a grande paixão da minha vida”. Depois disso, raramente vinha a Portugal, telefonando escassíssimas vezes, e manifestando uma perfeita indiferença pela sorte da mãe.

                Os cânticos, as luzes e os enfeites de Natal surgiam agora como um ultraje à angústia da velhinha, uma profanação da sua dor e uma afronta ao seu sofrimento.

                Sempre fôra a chama viva da casa, mas agora, sentia-se prestes a apagar-se. Intuía que não chegaria ao Ano Novo, altura em que, no dia 1 de Janeiro, perfaria 90 anos de idade.

                 Para atenuar a dor da sua alma, provocada pela violência das vergastadas dos festejos de Natal, a velhinha saíu da artéria principal por onde caminhava, e passou a circular por uma travessa, onde o som dos cânticos chegava com menor intensidade e onde não eram visíveis as luzes nem os enfeites de Natal. Tentou estugar o passo para fugir de todos aqueles festejos dos outros, mas a artrite reumatóide não o consentiu.

                Nessa travessa, ao passar junto do “Centro de Atendimento de Toxicodependentes”, que ela tão bem conhecia dos tempos que tinham antecedido a morte do filho mais velho, sentiu uma enorme dor no peito e caíu nas pedras geladas da  calçada.

               Com toda a azáfama dos preparativos de Natal e o consequente entupimento do trânsito, a ambulância só chegaria volvidos trinta minutos.

               Nessa ocasião, já só o corpo inerte da velhinha se encontrava na calçada. A alma, essa já se tinha libertado do sofrimento de toda uma vida.                    

               O relatório de autópsia, após ter descrito a lesão dilacerante da velhinha - o esfacelo da sua alma -, referia nas conclusões médico-legais: “A morte de (…) foi devida à lesão da alma atrás descrita, causada por anos de solidão, sofrimento, angústia, afrontas, amor ao próximo não correspondido e falta de amparo familiar e social.

               Tal lesão constitui causa de morte violenta e é compatível com a informação constante do Historial de Vida de (...) a que tivemos acesso, no qual é abundantemente referida toda a dor que a família e a sociedade em geral, pelas suas acções e omissões, vinham causando à falecida ao longo dos anos.”

              Poucos foram, porém, os que tiveram acesso às conclusões médico-legais vindas de referir e, precisamente aqueles que deveriam ter reflectido sobre o seu teor, jamais as leram.

              Agora, a velhinha, sentada à direita de Deus-Pai, está feliz.

               Sabe finalmente o que aconteceu à filha mais nova, com quem já se fundiu num abraço eterno: raptada em seu dia por um pedófilo, este abusara dela e depois, tirara-lhe a vida e fizera desaparecer o cadáver.

               Também já se reencontrou com o filho mais velho, que falecera vítima de uma "overdose" de cocaína.

               Terá capacidade para iluminar o caminho do filho recluso.

                O marido terá todo o tempo do mundo para lhe fazer o bem de que a considera merecedora.

               E a filha gémea veio finalmente fazer-lhe uma visita; beijou-a, abraçou-a longamente e ofereceu-lhe flores antes de o corpo da mãe descer à terra.

                                                                                                           
 

                                                        Texto e foto da Isabel Maria.

Domingo, 13 de Novembro de 2011

MILAGRE DE NATAL

                                  

             Naquele Natal, a pequena Angélica tinha pedido uma prenda muito especial ao Menino Jesus: o milagre de voltar a estar com sua mãe que, uns meses antes, falecera vítima de doença prolongada. Queria que lhe fosse concedida a bênção de estar com sua mãe só mais um Natal, e afagar o rosto dela só mais uma vez, e outra ainda, e mais outra, e só mais uma...
             Veio-lhe à memória o sorriso doce da mãe, a prodigalizar-lhe todo o amor que brotava do seu coração gigante, o tom quente e o timbre aveludado de uma voz que semeava paz em seu redor, e a pele suave de umas mãos que lhe afagavam os caracois loiros quando ela se afundava num porto de abrigo ímpar: o colo de sua mãe.
              Uma vez mais, chorou convulsivamente, porque apesar dos seus 6 anos de idade, ela sabia que sua mãe havia partido numa manhã fria de Março para não mais voltar.
              E a chorar desesperadamente, a pequena Angélica adormeceu, enroscando-se tão profundamente no seu sono, como em outros dias se enroscara no colo de sua mãe.
              Do alto dos céus, descia agora uma melodia cantada por um coro de querubins. Pé ante pé, a mãe da pequena Angélica aproximou-se da cama da filha com o mesmo sorriso celestial de outrora, e, cobrindo-a com um manto de paz, pousou serenamente os lábios na face molhada dela, depositando nesse beijo o amor de toda uma vida que não lhe foi dado viver com a sua menina. Depois, pediu à pequena Angélica que não chorasse mais, porque ela iria estar presente naquele Natal e em todos os outros, como iria estar sempre presente em todos os momentos da vida de sua filha. Num frémito de amor e saudade, a pequena Angélica estendeu os bracitos roliços para envolver o pescoço de sua mãe e a apertar contra o peito. Foi então que das duas estrelinhas azuis que a mãe sempre trazia no olhar, se desprendeu uma copiosa chuva de estrelas que, congregando em seu redor, catadupas de cometas, acompanhou em cortejo o seu regresso ao céu. Mas antes de partir, a mãe da pequena Angélica depositou uma estrelinha na almofada da filha.
             Angélica acordou mergulhada numa neblina de tranquilidade espiritual. Ao ver a estrelinha que brilhava na almofada, acariciou-a e olhou para o Menino Jesus de terracota que sobre a mesinha de cabeceira, a observava com um sorriso de felicidade. Angélica devolveu-lhe o sorriso, e beijando-lhe a face rechonchuda, segredou-lhe: “Muito obrigada por este milagre de Natal!”.
             Quando naquela manhã de Natal, a pequena Angélica saíu do seu quarto e chegou à sala, foi com surpresa que o pai, ao dar-lhe dois beijos, notou no rosto da filha o renascer do sorriso de felicidade que desde uma manhã fria de Março tinha deixado de morar nela.
             A partir daquele dia, a pequena Angélica interiorizou uma certeza que lhe deu alento: do alto dos céus, sua mãe zelaria dia e noite pela sua existência, iluminando sempre o caminho da filha e lançando estrelinhas à sua passagem. Naquele Natal, a pequena Angélica ficou a saber que quando amamos verdadeiramente alguém, essa pessoa conquista o estatuto da imortalidade, vivendo para todo o sempre dentro de nós em jeito de rasto fulgurante que nos afaga a alma, fazendo da nossa vida uma permanente festa de Natal.

                                                                                                                Texto e fotografia: Isabel Maria.

Domingo, 30 de Outubro de 2011

O FILHO DA NADADORA


                                        
                                                
     Estava concentrada no seu posicionamento junto à parede interior da piscina, já que a sua partida iria ter lugar dentro da água.

      Puxou o corpo contra a parede, ao mesmo tempo que empurrou a borda com os pés, de molde a que o corpo se elevasse e os quadris saíssem da água.

      Dado o tiro de partida, mergulhou para trás.

      Nesta modalidade de crawl de costas, ela girava alternadamente os braços como autênticas hélices, efectuando vários batimentos de pernas durante um ciclo de braçadas completo.

          Logo nos primeiros metros da sua progressão dentro da água, reparou que entre a numerosa assistência da competição, se encontrava de novo aquele menino com caracóis castanhos e olhos de um azul ultramarino, sorrindo para ela, e gritando: “Força, Mamã! Força!”

          Assim que os olhos dela se fundiram nos dele e a luminosidade do olhar dele  penetrou na alma dela, a adrenalina da nadadora atingiu o seu ponto máximo e ela começou a nadar desenfreadamente até chegar ao fim da prova.

          O crawl de costas era o seu estilo de natação preferido, e nele ela era exímia, coordenando na perfeição os movimentos propulsores dos braços e das pernas, embora também fosse uma boa nadadora de crawl, bruços, mariposa, e da modalidade que reunia estes 4 estilos: Medley.

          Volvidos os primeiros 50 metros, a nadadora, para fazer a viragem, executou uma cambalhota de costas, seguida de uma rotação do corpo que a colocou novamente na posição dorsal. 

           Foi como um autêntico furacão dentro da água que nadou os restantes 450 metros da competição.

           Uma vez mais, conquistou a primeira posição, com grande vantagem em relação a todas as suas adversárias.

           Indubitavelmente, a presença do filho na assistência dava-lhe enorme alento e determinação para vencer.

           Terminada a prova, a nadadora olhou ansiosamente para o público, à procura do seu menino, como sempre fazia, embora soubesse de antemão que, nessa altura, ele já nunca lá se encontrava. Como sempre, também desta vez ele estivera presente durante o tempo em que sua mãe percorrera os 500 metros e, finda a prova, desaparecera. Gostava de permanecer nas bancadas o tempo necessário para lhe dar força e a ver vencer, e depois, desaparecia. Tinha sido sempre assim.

        Ao sair da água, a nadadora, sabedora que seu marido viria, como habitualmente, felicitá-la antes da cerimónia protocolar da entrega de medalhas, decidiu que, desta feita, não lhe iria contar que, durante a competição, seu filho estivera na assistência a transmitir-lhe coragem. Mortificava-a pensar que, de todas as vezes que, num êxtase sem par, contara ao marido que o filho lá tinha estado, ele, abraçando-a pela cintura, lhe dizia com o tom de voz meigo que o caracterizava:

         - Meu Amor: O que nós sentimos e sentiremos sempre, é uma dor inigualável. A perda de um filho é um drama irreparável, mas tens de começar a interiorizar que o nosso filho já não pode estar aqui, entre nós. Não nos podemos agarrar à temerária ilusão de que ele está na assistência… Tens de aceitar que o nosso menino partiu para junto de Deus e, nos céus, dar-te-á sempre muita força.

         De cada vez que o marido lhe arremessava à cara a cruel realidade da morte do seu menino, ela sentia o sangue gelar-lhe nas veias e tinha a sensação de que estava a ser lançada contra um iceberg, com o coração a partir-se em mil pedaços. Por isso, desabava irremediavelmente num pranto de vencida. Por que razão seu marido insistia em a desapossar da doce ilusão de que seu filho continuava a assistir na bancada às suas vitórias e a dar-lhe o alento de que ela necessitava? Teria seu marido o direito de fazer abortar a réstia de felicidade de uma mãe que continua a receber forças do seu filho de cada vez que entra numa competição desportiva? Que mal há em ter a ilusão de que ele continua lá? Não é esta alucinação de mãe, legítima? Ela sabia perfeitamente que o marido achava que esta sua visão era um sintoma de loucura. Por isso, nesse dia, decidiu que, doravante, não mais lhe contaria que, durante a prova, tinha visto o seu menino com caracóis castanhos e olhos de um azul ultramarino, entre o público, a dar-lhe a maior força do mundo. Ele jamais acreditaria.

         Antes da cerimónia protocolar da entrega de medalhas, o marido abeirou-se dela e deu-lhe um prolongado beijo, dizendo-lhe, como sempre lhe dizia, que estava muito orgulhoso dela. Depois, encostando-lhe os lábios ao ouvido, perguntou-lhe:

         - Hoje também viste o nosso menino?

         Teve de resistir para não deixar cair as suas forças e a sua determinação, para não desabar num pranto e não sucumbir à tentação de, uma vez mais, lhe contar a verdade - sim, o seu menino tinha lá estado -, mas prometera a si mesma que não daria azo a que seu marido, uma vez mais, a olhasse com o sorriso de compaixão que se oferece a alguém que está irremediavelmente à deriva na sua loucura.

         Cerrando os dentes, respondeu-lhe:

          - Não, hoje o nosso menino não estava lá.

          O marido sorriu, já não com o mesmo sorriso de compaixão, mas com um sorriso cheio de felicidade. Foi, então, que ele lhe segredou:

           - Minha Querida, como é que não o viste?! Eu vi-o! Ele esteve lá o tempo todo, a gritar “Força, Mamã! Força!”, e só se foi embora quando se certificou de que, uma vez mais, tinhas chegado em 1º lugar.

                                                                                                       

          Texto e foto: Isabel Maria.

       

          

         


      

Sábado, 8 de Outubro de 2011

UM PEDAÇO DO CÉU



Quando recebemos, um cometa ilumina o nosso rosto. Quando damos, uma chuva de cometas perfumados envolve o nosso coração.
Há uns dias, ofereci ao meu pai uma prenda que sabia que ele muito apreciaria.
Enquanto a encomenda ia a caminho, comuniquei-lhe que teria de abrir a porta ao emissário.
Surpreendido, o meu pai recusou terminantemente a oferta. Porém, insisti e perguntei-lhe: "É ou não uma boa prenda?" Do lado de lá, a resposta não se fez tardar: "É a melhor coisa que me podiam dizer agora." Eu respondi: "E essa é a melhor resposta que me podiam dar agora."
Senti-me imensamente feliz porque dei a alguém um pedaço do céu. São Francisco tinha razão quando dizia "(..) é dando que se recebe (...)".
Desliguei o telefone e fiquei a pensar como nos sentimos felizes quando desenhamos um sorriso no coração de alguém.
Naquele instante, recebi uma mão cheia de pérolas de felicidade.  

Texto e Foto: Isabel Maria.