Ao passar na área octogonal central, sob a cúpula de vidro com 47 metros de altura, recordou-se da primeira vez que ali tinha estado: tinha sido há muitos anos, com seus pais. Sua mãe, desde sempre versada em Heráldica, explicara-lhe, então, que o desenho no chão dessa área - uma cruz branca sobre um fundo vermelho, era o símbolo heráldico da família Sabóia. “Em redor”, continuava sua mãe, “estão os brasões de quatro cidades italianas: o touro de Turim, a loba de Roma, o lírio de Florença e a cruz vermelha sobre fundo branco, de Milão.”
Não conseguiu evitar sorrir ao recordar a convicção e a vaidade com que sua mãe, ali mesmo, lhe transmitira a ela e ao pai, estes seus conhecimentos.
Continuou a atravessar a Galleria Vittorio Emanuele II, até entrar na Piazza del Duomo.
Aqui, reparou num grupo de turistas que, a uns 40 metros de distância, apreciavam a estátua equestre do Rei Vittorio Emanuele II.
De entre os elementos que compunham o grupo, destacava-se um homem alto, trajado de preto, com um chapéu da mesma cor, que estava parado e posicionado de costas para ela.
Ficou petrificada. Seria ele? Recordou que ele sempre tinha tido o hábito de se vestir de preto e de usar um chapéu da mesma cor, este adornado com uma pena de pavão colocada do lado direito, mas o que é certo, é que muitos homens têm o hábito de se vestir de preto, e o chapéu preto é usado, com alguma frequência, como complemento da indumentária masculina. Acresce que, no chapéu deste homem da Piazza del Duomo, não era visível qualquer pena de pavão, e ele sempre fizera questão de colocar este acessório no lado direito do chapéu.
O homem que Pilar recordava agora, tinha vivido com ela uma paixão arrebatadora, mantida no segredo dos deuses durante seis meses. Quando a mulher dele descobriu tudo e perdeu os gémeos que esperava, ele, corroído pelos remorsos, passou a ser um marido muito mais presente e a dar todo o tipo de assistência à mulher, sobrando-lhe pouquíssimo tempo para Pilar. Esta, perante o desmoronar da relação com ele, forçou-se a si mesma a desistir de lutar por esse amor e abandonou Madrid, mudando-se para Barcelona.
Uns meses depois de se encontrar a residir nesta cidade espanhola, soubera, por uma amiga, que, entretanto, ele se tinha divorciado, mas, violentando o ardor do seu próprio desejo, jamais o procurara.
Seria ele que agora ali estava? Ele que, em seu dia, pertencera a Pilar e a quem Pilar também se entregara de corpo e alma? Depois dele, não existira mais ninguém e os que tinham existido antes dele, tinham-se esfumado na bruma do esquecimento.
Pilar deu uns passos em frente, na direcção do homem de preto com chapéu da mesma cor, que continuava de costas, e imobilizou-se atrás dele.
Pareceu-lhe que era efectivamente ele, mas, então, o que teria acontecido à pena de pavão?
Avançou mais uns passos na direcção do homem, sem nunca tirar os olhos dele.
Ele levou o cigarro à boca com uma prazenteira lentidão sensual, tal como o antigo amante dela sempre fizera. Envergava luvas pretas, não permitindo, assim, que Pilar eventualmente o reconhecesse pelas mãos.
Por escassos instantes, o homem olhou para o seu lado direito.
Pilar perscrutou o seu perfil, mas ele tinha óculos escuros tipo mascarilha, que lhe cobriam os olhos e parte do rosto, e ela não ficou certa de que fosse ele.
Os turistas fotografavam e filmavam a Piazza del Duomo, a “grande máquina do Duomo”, como em “Os Noivos”, Alessandro Manzoni descreve a catedral de estilo gótico lombardo de Milão, a terceira maior igreja do mundo. Também a estátua equestre de Vittorio Emanuele II, as Galerias Vitorio Emanuel II e o Palazzo Reale estavam, naquele instante, a ser alvo de todas as objectivas, mas Pilar só tinha olhos para aquele homem de preto com chapéu da mesma cor, posicionado de costas para ela.
Seria ele? Se ao menos o ouvisse falar, poderia reconhecer a sua voz. Uma voz quente como uma tarde de Dezembro no Quénia.
Recordou-se que ele tinha os olhos da cor do mel, a cútis morena e um sorriso envolvente como uma nuvem de rosas brancas.
Deu mais uns passos na direcção do homem, ficando a escassos metros dele. Sentiu que, mesmo que não fosse ele, seria, seguramente, um homem, também ele, absolutamente irresistível.
O homem deu uns passos em frente. Era o mesmo andar do seu amante de sempre. Seria mesmo ele?
Estes segundos de espera estavam a transformar-se numa eternidade, com a incerteza e a dúvida a adensarem-se e a angústia a tomar corpo. Subitamente, Pilar sentiu que urgia certificar-se se era realmente ele.
Estugando o passo, aproximou-se do homem de preto com chapéu da mesma cor, que continuava a caminhar de costas para ela. Ao passar por ele, abrandou o passo, ao mesmo tempo que, virando a cabeça, fixou o seu olhar no rosto dele, para poder verificar se era ele. O homem de preto com chapéu da mesma cor, olhou para ela, abrandou, também ele, o passo, após o que, sem nunca deixar de a olhar, parou. Pilar parou também. Ele tirou os óculos escuros que lhe escondiam os olhos e parte do rosto, e sorriu. Tinha os olhos da cor do mel, a cútis morena e um sorriso envolvente como uma nuvem de rosas brancas. Na lapela direita do casaco, tinha aplicada uma pena de pavão. O sorriso dele penetrou fundo nos olhos dela, perfumando-lhe a alma. Pilar também sorriu. Sorriu, como havia muito tempo não sorria. E soube que, a partir daquele momento, a Piazza del Duomo seria, para ela, a mais bela praça do mundo, destronando, assim, a Place de la Concorde.
Texto e fotografia da Isabel Maria
