Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...
“Dispersão” – Mário de Sá Carneiro
Colo de mãe
O ribombar da trovoada tragava o mundo. Os relâmpagos rompiam impiedosamente o céu, pintado de uma negrura, que parecia anunciar o final dos tempos. A chuva caía com desenfreada raiva. O vento soprava com cólera. O mar revolto anunciava que tinham aberto as comportas do inferno. As ondas rebentavam na praia, vergastando a areia com a violência de um verdugo posto em desassossego.
Os olhos da mulher que, no terraço da “suîte” de um hotel de luxo, contemplava o mar no meio da tempestade, encheram-se de água tenebrosa, que brotou do fundo da sua alma à deriva. A consciência dela era agora um vulcão em erupção, a expelir lavas de desesperada angústia.
O seu olhar fixou a fúria do mar. As águas devolveram-lhe o rosto de um menino que pedia colo a sua mãe. Mas esta, corroída até às entranhas, pelas exigências de uma vida profissional desgastante e avassaladoramente competitiva, só conseguia ver nesses olhos suplicantes e ávidos de amor materno, o fantasma que, a cada instante, queria roubá-la à profissão e sugar-lhe o seu escasso e, por isso, tão precioso tempo.
Esta mãe jamais se detivera a contemplar a limpidez do olhar do seu menino, através do qual e para além do qual, ele deixava ver a sua alma imaculada. Nunca lhe ofertara um sorriso despreocupado, nem nunca existira, ainda que por breves instantes, só para ele.
Jamais o menino soube o que era o doce enroscar no colo da mãe. Nunca conheceu aquele porto-de-abrigo incondicional chamado regaço materno, porque a mãe não tinha tempo para encontrar a paz, e não podia dar aquilo que não tinha.
A mãe do menino, numa permanente e desenfreada agitação, jamais conseguiu encontrar o verdadeiro lenitivo para esse padecimento dos tempos modernos: a cegueira do êxito profissional. Por isso, nunca encontrou tempo para fazer uma verdadeira aproximação ao filho, nem nunca deixou transparecer o seu amor materno, esquecendo-se de ligar o interruptor que encheria de luz o seu coração de mãe e aqueceria a alma do menino.
Os anos decorreram com um ritmo vertiginoso e nessa voragem do tempo, a mãe do menino nunca olhou para trás.
Hoje, o grito dela ecoa a partir do terraço de uma “suîte” de um hotel de luxo no fim do mundo, à beira de uma praia em território da Polinésia Francesa, para onde, escassas semanas depois de o menino ter sucumbido a uma meningite, ela fugiu, na ilusão de, nessas ilhas paradisíacas, obter a paz nunca antes alcançada. Esqueceu-se que, neste mundo, o dinheiro compra quase tudo, mas nunca a paz. Olvidando que nem no Pacífico Sul, nem em qualquer outra parte do planeta, nada nem ninguém pode trazer de volta a uma mãe, o tempo perdido, percorreu, numa aflição, os cinco arquipélagos da Polinésia Francesa - Sociedade, Marquesas, Austrais, Mangarevas e Tuamotu, estando agora instalada num hotel de luxo taitiano em Papeete.
Pobre mãe só! Apenas cheia de dinheiro e de sucesso profissional!
O seu grito é um pranto despedaçado e estilhaçado pelo tempo tão desgraçadamente deitado fora. Por isso, por entre a perdição da insónia nocturna e o inferno da tempestade, ecoam palavras desesperadas que encerram em si toda a loucura vã do remorso que sobra:
- Filho! Por amor de Deus, volta e pede-me colo outra vez!
Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa
domingo, 17 de abril de 2011
domingo, 10 de abril de 2011
La Pietà
Há uns anos, numa sexta-feira santa, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, a minha atenção foi convocada para “La Pietà”, que me fascinou como um céu cheio de cometas. Não pude deixar de me deter perante a incomensurável riqueza daquela obra de arte legada à Humanidade por Michelangelo Buonarroti que, pelo seu peculiar talento e brilhantismo, ombreia os deuses. Na verdade, a singularidade dessa obra reside na mestria com que aquele de Caprese, aos 23 anos de idade, soube esculpir no mármore, o estado de alma de “sereno desespero” de uma mãe que ampara no seu regaço, o filho cujo espírito partiu já deste mundo. Uma mãe com a alma amortalhada, desfeita em mil farrapos gélidos, segurando seu filho morto – Jesus de Nazaré, o Filho de Deus-Pai Todo Poderoso. Uma mulher, também ela, supliciada e crucificada, despedaçada por uma agonia dilacerante, à deriva num mar de pranto. Não é assim que se sente a mãe cujo filho foi assassinado? De que outra forma se pode descrever a mulher que é fulminada por uma dor do tamanho do mundo? E, no entanto, contemplando a Virgem tão serena na sua dor, somos invadidos por uma inusitada sensação de paz, que se desprende da resignação desta Mulher perante o drama que sobre ela se abateu. Ao apreciar, deslumbrada, este magnífico grupo escultórico de mármore, lembrei-me de tantas mães que perderam os seus filhos, os quais ressuscitaram para sempre na alma delas. E acendi uma vela por todas essas mães, pedindo a Deus que lhes dê sempre capacidade de resignação e de aceitação da sua incomensurável dor, já que esta, nada nem ninguém conseguirá jamais apagar do seu coração. O meu momento de recolhimento e oração foi interrompido por um vozinha miudinha que, atrás de mim, no colo de sua mãe, clamava, em bom Francês de Paris, que queria ir comprar os ovos de chocolate que lhe tinham sido prometidos. Olhei para trás e sorri para o menino sardento. Quando ele, com o seu ar reguila, me devolveu o sorriso, interroguei-me se ele conheceria o verdadeiro significado dos ovos da Páscoa. Saberia ele que o domingo de Páscoa é a ressurreição de Cristo, simbolizada pelo ovo, que representa o nascimento, o retorno da vida? Este é o verdadeiro sentido da mais importante festa da Cristandade, e é o único que eu gostaria de ver preservado no coração de todos e de cada um de nós. Voltei a olhar para trás, desta feita através da bruma do tempo, e vislumbrei, lá muito ao longe, uma menina de cinco anos de idade, sentada no colo de sua mãe que, beijando e afagando a face da menina, lhe explicava o significado dos ovos da Páscoa. A menina sorria docemente, com os dentes cheios de chocolate, e deliciava-se com tudo o que sua mãe lhe ensinava. Bem hajas, querida mãe, por, no salão com lareira da minha infância, na hora do chá e dos scones quentes com manteiga, teres sempre partilhado comigo os teus conhecimentos.
domingo, 3 de abril de 2011
"Chuva Mágica"
Chovia copiosamente lá fora. A menina adormeceu na sala, junto à lareira.
Sonhou que, sentada numa cadeira de rodas, e sob uma chuva intensa, deslizava num caminho atapetado com musgo e ladeado por vegetação luxuriante.
A dada altura, entrou num jardim, também ele coberto de musgo, cheio de flores coloridas e de árvores frondosas, com nascentes de água cristalina, e onde abundavam esquilos, coelhinhos, hamsters, bâmbis e passarinhos, cujo pipilar se assemelhava a acordes celestiais.
Um anjo cheio de caracóis louros e com o olhar azul e profundo como os oceanos, passeava no jardim. Ao ver a menina, sorriu e, dirigindo-se ao seu encontro, pegou suavemente na mão dela e beijou-a. Explicou-lhe então:
- Este é um jardim que encerra em si a concretização dos sonhos das crianças e nele alcançarás igualmente a concretização do teu sonho. A chuva que abençoa este jardim, é mágica, porque, num carrossel de estrelas multicolores e de música celestial, envolve as crianças num abraço, e os sonhos delas tornam-se realidade. Por isso te convido a dançar comigo à chuva, neste jardim.
Dito isto, voltou a pegar docemente na mão dela para a ajudar a erguer-se da cadeira de rodas, o que ela, atónita, conseguiu fazer sem a menor dificuldade.
Logo de seguida, ela tirou os sapatos para poder sentir nos pés, o afago do musgo e a fresca vitalidade da chuva. O anjo, sorrindo sempre com divina pureza, enleou-a pela cintura e começou a dançar com ela. Envoltos numa nuvem de estrelinhas esvoaçantes multicolores, das quais se desprendia a “Sinfonia dos Brinquedos”, foram percorrendo todo o jardim, acompanhados pelos esquilos, coelhinhos, hamsters, bâmbis e passarinhos, que, aos pares, dançavam em fila atrás deles. O pipilar dos passarinhos que acompanhavam a menina e o anjo, aumentara agora de intensidade, regozijando-se os passarinhos com as gargalhadinhas dela, e sendo perfeita a sintonia entre aquele pipilar e os sons dos instrumentos musicais e dos pequenos brinquedos sonoros da “Sinfonia dos Brinquedos”.
Ela, deslumbrada, sentia-se a menina mais afortunada do mundo, porque, afinal, conseguia dançar.
Quando acordou, a mãe abeirou-se dela sorrindo:
- Adormeceste, meu amor... Chove tanto lá fora! Imagino que o teu sonho tenha sido maravilhoso, porque sorrias sempre e davas muitas gargalhadinhas.
Ela abraçou a mãe e, irradiando felicidade, contou-lhe que tinha tido o sonho mais bonito da sua vida: uma dança, descalça, à chuva, com um anjo, num jardim coberto de musgo, cheio de flores e de estrelinhas esvoaçantes multicolores, rodeada de esquilos, coelhinhos, hamsters, bâmbis e passarinhos, sob os auspícios da “Sinfonia dos Brinquedos”.
– Precisavas de ter visto, mamã, como eu conseguia acompanhar os passos de dança do anjo! Concretizei o meu sonho de dançar!
A mãe, não contendo as lágrimas, que deslizaram pelo seu rosto, como dois fios de prata, colocou o DVD da “Sinfonia dos Brinquedos” a tocar, aproximou-se da filha, tirou-lhe os sapatos, levantou-a da cadeira de rodas, pegou nela ao colo, e, assim, juntinhas, dançaram com mútuo enleio.
Lá fora, a chuva continuava a cair copiosamente.
Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa
Chovia copiosamente lá fora. A menina adormeceu na sala, junto à lareira.
Sonhou que, sentada numa cadeira de rodas, e sob uma chuva intensa, deslizava num caminho atapetado com musgo e ladeado por vegetação luxuriante.
A dada altura, entrou num jardim, também ele coberto de musgo, cheio de flores coloridas e de árvores frondosas, com nascentes de água cristalina, e onde abundavam esquilos, coelhinhos, hamsters, bâmbis e passarinhos, cujo pipilar se assemelhava a acordes celestiais.
Um anjo cheio de caracóis louros e com o olhar azul e profundo como os oceanos, passeava no jardim. Ao ver a menina, sorriu e, dirigindo-se ao seu encontro, pegou suavemente na mão dela e beijou-a. Explicou-lhe então:
- Este é um jardim que encerra em si a concretização dos sonhos das crianças e nele alcançarás igualmente a concretização do teu sonho. A chuva que abençoa este jardim, é mágica, porque, num carrossel de estrelas multicolores e de música celestial, envolve as crianças num abraço, e os sonhos delas tornam-se realidade. Por isso te convido a dançar comigo à chuva, neste jardim.
Dito isto, voltou a pegar docemente na mão dela para a ajudar a erguer-se da cadeira de rodas, o que ela, atónita, conseguiu fazer sem a menor dificuldade.
Logo de seguida, ela tirou os sapatos para poder sentir nos pés, o afago do musgo e a fresca vitalidade da chuva. O anjo, sorrindo sempre com divina pureza, enleou-a pela cintura e começou a dançar com ela. Envoltos numa nuvem de estrelinhas esvoaçantes multicolores, das quais se desprendia a “Sinfonia dos Brinquedos”, foram percorrendo todo o jardim, acompanhados pelos esquilos, coelhinhos, hamsters, bâmbis e passarinhos, que, aos pares, dançavam em fila atrás deles. O pipilar dos passarinhos que acompanhavam a menina e o anjo, aumentara agora de intensidade, regozijando-se os passarinhos com as gargalhadinhas dela, e sendo perfeita a sintonia entre aquele pipilar e os sons dos instrumentos musicais e dos pequenos brinquedos sonoros da “Sinfonia dos Brinquedos”.
Ela, deslumbrada, sentia-se a menina mais afortunada do mundo, porque, afinal, conseguia dançar.
Quando acordou, a mãe abeirou-se dela sorrindo:
- Adormeceste, meu amor... Chove tanto lá fora! Imagino que o teu sonho tenha sido maravilhoso, porque sorrias sempre e davas muitas gargalhadinhas.
Ela abraçou a mãe e, irradiando felicidade, contou-lhe que tinha tido o sonho mais bonito da sua vida: uma dança, descalça, à chuva, com um anjo, num jardim coberto de musgo, cheio de flores e de estrelinhas esvoaçantes multicolores, rodeada de esquilos, coelhinhos, hamsters, bâmbis e passarinhos, sob os auspícios da “Sinfonia dos Brinquedos”.
– Precisavas de ter visto, mamã, como eu conseguia acompanhar os passos de dança do anjo! Concretizei o meu sonho de dançar!
A mãe, não contendo as lágrimas, que deslizaram pelo seu rosto, como dois fios de prata, colocou o DVD da “Sinfonia dos Brinquedos” a tocar, aproximou-se da filha, tirou-lhe os sapatos, levantou-a da cadeira de rodas, pegou nela ao colo, e, assim, juntinhas, dançaram com mútuo enleio.
Lá fora, a chuva continuava a cair copiosamente.
Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa
domingo, 27 de março de 2011
Eternamente
- Mamã, o que é a imortalidade da lembrança?
- Meu filho, pensa em todo um conjunto de pessoas, de lugares e de acontecimentos que, atravessando o tempo, se perpetuam na nossa memória. Emoções que se eternizam em nós. Rastos cintilantes que perfumam a nossa alma, ou nuvens negras e densas que a fulminam. Nesse conjunto, encontrarás pessoas que fizeram grandes legados à Humanidade: pessoas que foram capazes de criações artísticas geniais, como Beethoven, que deram à ciência contributos de grande vulto, como Einstein, que lutaram aguerridamente pelos direitos cívicos e políticos das minorias desfavorecidas, como Nelson Mandela, que cuidaram dos doentes e dos sem-abrigo com amor incondicional, como Madre Teresa de Calcutá. Mas nesse conjunto, encontrarás igualmente pessoas que se cristalizaram na nossa memória por terem cometido inacreditáveis monstruosidades, como Bin Laden ou Adolf Hitler. Também a nossa lembrança é acariciada por brisas celestiais mágicas, que encerram em si instantes e lugares: o som da palavra “mamã”, que o nosso bebé pronuncia pela primeira vez, no exacto momento em que, olhando-nos nos olhos, vê o mundo através deles e para além deles, o sorriso com que, no jardim da nossa infância, a avó nos senta no colo e nos acaricia a alma, o abraço do tamanho do mundo com que um amigo nos agasalha o coração instantes antes de entrarmos para o bloco operatório, a audição de “O Coro dos Escravos Hebreus” (3º acto do “Nabucco”, de Verdi), no “Teatro Alla Scala”, em Milão, o beijo que um pequeno anjo com a pele da cor do ébano e a alma branca, nos dá na mão, na cidade do Mindelo, depois de lhe termos dado uma nota de 1.000 escudos cabo-verdianos, o pôr-do-sol em Mombasa, as acácias rubras nas avenidas do Maputo, o perfume das frésias no quintal da nossa meninice. Porém, na nossa lembrança, também estão gravados instantes e lugares que para aí foram arrastados pela lava de vulcões em erupção, em congregação de esforços com ventos ciclónicos: o semblante pesado do oncologista na hora em que nos comunicou que o carcinoma da nossa irmã estava irremediavelmente metastizado, o olhar de tresloucada perdição da mãe no momento em que lhe comunicaram a morte do filho, o dia em que o nosso marido recebeu alta do Hospital para, juntos, reaprendermos a viver, depois de ele ter sofrido a amputação das duas pernas, o olhar vago com que o condenado à cadeira eléctrica se despede dos filhos no corredor da morte, a visão dos fornos crematórios nos antigos campos de extermínio nazis, a queda das Twin Towers e os saltos para a morte das pessoas que se encontravam nos pisos superiores, o desastre nuclear de Chernobyl e o cortejo de dramas arrastado pela libertação da nuvem radioactiva, o sismo com a magnitude de 9 na Escala de Richter, no Japão, o tsunami que se lhe seguiu, com ondas a atingir os 23 metros de altura, a ameaça nuclear na central de Fukushima Daichii. Todos estes momentos únicos - maravilhosos ou trágicos, marcaram um dia, a nossa alma a ferro e fogo, fazendo com que a sua lembrança não mais nos abandonasse e passasse, irreversivelmente, a fazer parte de nós.
Fui clara, meu filho?
- Sim, mamã. Gosto muito, muito, muito de ti. Tu és a imortalidade da minha lembrança.
- Meu filho, as tuas palavras permanecerão em mim para todo o sempre. Também te amo muito, muito, muito! Eternamente.
domingo, 20 de março de 2011
“Se quereis contemplar o espírito da morte abri de par em par o vosso coração ao corpo da vida. Porque a vida e a morte são uma só coisa, como são uma só coisa o rio e o mar.” - khalil Gibran, “O Profeta”, pag. 54.
Pela mão do anjo
Já o crepúsculo tinha estendido o seu manto sobre a cidade, quando Leonor chegou ao prédio onde morava.
Do céu desprendiam-se agora milhões de cometas, enquanto uma melodia brutalmente terna, tocada ao piano e cantada por querubins, ecoava pela cidade, inundando o espírito de todos com uma paz que não pertencia a este mundo. As vozes dos querubins entoavam:
“Ah! That day of tears and mourning!
From the dust of earth returning,
Man for judgement must prepare him;
Spare, O God, in mercy spare him!
Lord, all pitying, Jesu Blest,
Grant them Thine eternal rest. Amen.”
Mas era dentro do prédio de Leonor que o som da “Lacrimosa”, o seu trecho predilecto do “Requiem” de Mozart, se fazia ouvir com maior intensidade.
Subiu ao segundo andar e foi-lhe dado constatar que da porta de sua casa saíam feixes de luz multicolor, ao mesmo tempo que, do interior, brotava com ímpeto a harmoniosa conjugação do som do piano com os cânticos celestiais.
Entrou e dirigiu-se ao salão. Sentada ao piano, estava uma senhora elegantemente vestida por Christian Dior, envolta numa neblina de Eau de Toilette Femme de Montblanc, com um olhar azul ultramarino e uma luminosa e farta cabeleira de caracóis loiros. As mãos eram alvas e esguias, exibindo o dedo anelar da mão esquerda, uma jóia Cartier. À direita da pianista, o coro de querubins cantava com fervor.
Sem deixar de tocar, e sem que o coro de querubins parasse de cantar, a senhora olhou fixamente para Leonor e sorriu com suprema ternura.
Enfeitiçada pela quietude daquele olhar e pela doçura do sorriso que o ornamentava, Leonor sentou-se no sofá junto ao piano, abrindo a alma à música e bebendo as vozes dos querubins.
Quando, volvidos alguns instantes, a actuação conjunta dos querubins e da senhora terminou, Leonor teve vontade de lhe perguntar quem era ela, o que fazia ali e por que razão estava acompanhada pelos querubins, mas, concomitantemente, sentiu que a inaudita tranquilidade espiritual que aquele desempenho concertado tinha acabado de lhe ofertar, tornava indelicada a colocação de semelhantes questões.
Sorrindo sempre, a senhora continuou a fixar o olhar de Leonor, olhando através dele e para além dele. Com uma voz onde reinava a ternura, respondeu àquilo que Leonor gostaria de lhe ter perguntado:
- Vim buscar-te, minha querida.
Leonor sentiu um calafrio percorrê-la dos pés à cabeça. Olhou através da janela. Lá fora, uma luminosidade cinzenta abatia-se sobre a cidade. Tinha, então, chegado a sua hora? Os seus olhos ficaram marejados de lágrimas que deslizaram por um rosto subitamente empalidecido.
A senhora ergueu-se, aproximou-se de Leonor e, colocando ambas as mãos sobre a face dela, afagou-lhe a alma. De seguida, beijou-lhe suavemente a testa e disse:
- Não receies nada. Fui eleita por Deus para te conduzir na viagem até ao lugar da paz celestial.
- O meu cancro…Vou piorar até mergulhar na fase terminal e, finalmente, empreender a viagem rumo ao repouso eterno? É isso, não é ?
Desta vez, foi nos olhos da senhora que se instalou a tristeza. Com a sua voz aveludada, observou:
- Minha querida Leonor, há quatro anos, foste acometida de um cancro colo-rectal e, como terapias adjuvantes da ostomia a que foste submetida, foi-te ministrada radioterapia e quimioterapia.
- A senhora sabe tudo isso?!
- Chama-me Graça e trata-me por tu. Lembras-te de um dia teres conversado mais detalhadamente com o teu médico oncologista, falando-lhe, inclusivamente, do livro que tinhas acabado de ler, intitulado “O cancro também pode morrer”, de um eminente oncologista do Hospital de Santa Maria?
- Estavas lá?! - questionou Leonor atónita.
- Eu sempre estive presente desde que fui eleita por Deus para te conduzir. Nesse dia em que falaste longamente com o teu médico oncologista, fui eu que te segurei o coração para que ele não caísse no chão e não se despedaçasse quando te foi dito que tinhas 10% de probabilidades de contrair metástases.
- Entendi, Graça. Vão ser detectadas metástases nos exames imagiológicos que, brevemente, irei realizar.
Graça baixou o olhar e acenou a cabeça positivamente. Depois, segurando as mãos de Leonor nas suas, disse-lhe:
- Serás de novo sujeita a sessões de quimioterapia, desta feita sem resultados palpáveis, após o que te induzirão o coma profundo. Nesse estado, dar-me-ás a tua mão e, juntas, partiremos.
- Mas tu és tão bonita e meiga, Graça!.. Dir-se-ia que és um anjo! Como podes ser tu a senhora da foice impiedosa?!...
- A travessia para a outra margem representa, invariavelmente, a transição para uma vida melhor. Quando vivemos em paz connosco próprios e com os outros, como sei que sempre aconteceu contigo, não tememos a morte. E, quando ela chega, entregamo-nos por inteiro, abrindo-lhe pacificamente os braços, para que ela nos tome e nos conduza nas suas asas.
- Mas, Graça…E se eu fugir de ti? - indagou Leonor, esforçando-se por desenhar um sorriso sardónico no seu rosto.
- Minha querida! - exclamou Graça, acariciando a face de Leonor. - Encontrar-te-ei sempre, porque quando é chegada a hora de uma pessoa, ela tem, inelutavelmente, de empreender a viagem.
- Quando partiremos?
- Vamos indo agora. Vou acompanhar-te através de um túnel de luz que vai desembocar num prado verde banhado pela paz celestial.
- Graça! - chamou Leonor preocupada. - Posso fazer-te uma pergunta?
- Todas as que quiseres.
- Como vão os meus pais aguentar a dor da perda da filha?
Foi com um sorriso maroto que Graça respondeu:
- Minha boa Leonor, não me obrigues a revelar as surpresas todas, mas, para tua tranquilidade, tenho de te transmitir que, muito em breve, o céu ficará em festa com a chegada dos teus pais. E agora, tenho uma outra surpresa para ti: a tua avó Marta espera-te à entrada do prado verde. Mal pode esperar pelo reencontro. Dá-me a tua mão e caminha a meu lado!
- A avó Marta sabe que vou chegar?! – perguntou Leonor sem caber em si de contente.
- Claro que sim! Achas que eu ia deixar de lhe contar? Ela apenas me pediu que não demorássemos.
Um túnel de luz tomou forma no salão de Leonor.
Esta, confiante, deu a mão a Graça e perguntou-lhe:
- Vais levar-me agora, e depois? Volto a ver-te? E diz-me: Vou ver a face de Deus? Nós, simples mortais, chegaremos algum dia, a ter o privilégio de ver o rosto de Deus?
Graça ofertou-lhe um sorriso do tamanho do universo e, quando se preparava para lhe responder pausada e serenamente, como era seu timbre, Leonor acordou na cama do quarto do Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. O carcinoma que a massacrava, estava, há muito, irremediavelmente metastizado em vários órgãos do seu corpo, mostrando-se já ultrapassados os trinta dias que o médico oncologista previra que ela viveria.
Como as metástases não dessem tréguas a Leonor, a equipa médica tomou, nesse dia, a decisão de lhe induzir o coma.
Volvidos três dias, à hora do crepúsculo, quando uma luminosidade cinzenta se abatia sobre a cidade, Leonor sentiu o afago e o perfume de Graça no seu rosto e soube que um anjo bom estava ali para lhe dar a mão e a conduzir por um túnel de luz que a libertaria do sofrimento atroz só nesta vida consentido.
De mão dada com o anjo, iniciou a caminhada com passo firme.
Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa
Pela mão do anjo
Já o crepúsculo tinha estendido o seu manto sobre a cidade, quando Leonor chegou ao prédio onde morava.
Do céu desprendiam-se agora milhões de cometas, enquanto uma melodia brutalmente terna, tocada ao piano e cantada por querubins, ecoava pela cidade, inundando o espírito de todos com uma paz que não pertencia a este mundo. As vozes dos querubins entoavam:
“Ah! That day of tears and mourning!
From the dust of earth returning,
Man for judgement must prepare him;
Spare, O God, in mercy spare him!
Lord, all pitying, Jesu Blest,
Grant them Thine eternal rest. Amen.”
Mas era dentro do prédio de Leonor que o som da “Lacrimosa”, o seu trecho predilecto do “Requiem” de Mozart, se fazia ouvir com maior intensidade.
Subiu ao segundo andar e foi-lhe dado constatar que da porta de sua casa saíam feixes de luz multicolor, ao mesmo tempo que, do interior, brotava com ímpeto a harmoniosa conjugação do som do piano com os cânticos celestiais.
Entrou e dirigiu-se ao salão. Sentada ao piano, estava uma senhora elegantemente vestida por Christian Dior, envolta numa neblina de Eau de Toilette Femme de Montblanc, com um olhar azul ultramarino e uma luminosa e farta cabeleira de caracóis loiros. As mãos eram alvas e esguias, exibindo o dedo anelar da mão esquerda, uma jóia Cartier. À direita da pianista, o coro de querubins cantava com fervor.
Sem deixar de tocar, e sem que o coro de querubins parasse de cantar, a senhora olhou fixamente para Leonor e sorriu com suprema ternura.
Enfeitiçada pela quietude daquele olhar e pela doçura do sorriso que o ornamentava, Leonor sentou-se no sofá junto ao piano, abrindo a alma à música e bebendo as vozes dos querubins.
Quando, volvidos alguns instantes, a actuação conjunta dos querubins e da senhora terminou, Leonor teve vontade de lhe perguntar quem era ela, o que fazia ali e por que razão estava acompanhada pelos querubins, mas, concomitantemente, sentiu que a inaudita tranquilidade espiritual que aquele desempenho concertado tinha acabado de lhe ofertar, tornava indelicada a colocação de semelhantes questões.
Sorrindo sempre, a senhora continuou a fixar o olhar de Leonor, olhando através dele e para além dele. Com uma voz onde reinava a ternura, respondeu àquilo que Leonor gostaria de lhe ter perguntado:
- Vim buscar-te, minha querida.
Leonor sentiu um calafrio percorrê-la dos pés à cabeça. Olhou através da janela. Lá fora, uma luminosidade cinzenta abatia-se sobre a cidade. Tinha, então, chegado a sua hora? Os seus olhos ficaram marejados de lágrimas que deslizaram por um rosto subitamente empalidecido.
A senhora ergueu-se, aproximou-se de Leonor e, colocando ambas as mãos sobre a face dela, afagou-lhe a alma. De seguida, beijou-lhe suavemente a testa e disse:
- Não receies nada. Fui eleita por Deus para te conduzir na viagem até ao lugar da paz celestial.
- O meu cancro…Vou piorar até mergulhar na fase terminal e, finalmente, empreender a viagem rumo ao repouso eterno? É isso, não é ?
Desta vez, foi nos olhos da senhora que se instalou a tristeza. Com a sua voz aveludada, observou:
- Minha querida Leonor, há quatro anos, foste acometida de um cancro colo-rectal e, como terapias adjuvantes da ostomia a que foste submetida, foi-te ministrada radioterapia e quimioterapia.
- A senhora sabe tudo isso?!
- Chama-me Graça e trata-me por tu. Lembras-te de um dia teres conversado mais detalhadamente com o teu médico oncologista, falando-lhe, inclusivamente, do livro que tinhas acabado de ler, intitulado “O cancro também pode morrer”, de um eminente oncologista do Hospital de Santa Maria?
- Estavas lá?! - questionou Leonor atónita.
- Eu sempre estive presente desde que fui eleita por Deus para te conduzir. Nesse dia em que falaste longamente com o teu médico oncologista, fui eu que te segurei o coração para que ele não caísse no chão e não se despedaçasse quando te foi dito que tinhas 10% de probabilidades de contrair metástases.
- Entendi, Graça. Vão ser detectadas metástases nos exames imagiológicos que, brevemente, irei realizar.
Graça baixou o olhar e acenou a cabeça positivamente. Depois, segurando as mãos de Leonor nas suas, disse-lhe:
- Serás de novo sujeita a sessões de quimioterapia, desta feita sem resultados palpáveis, após o que te induzirão o coma profundo. Nesse estado, dar-me-ás a tua mão e, juntas, partiremos.
- Mas tu és tão bonita e meiga, Graça!.. Dir-se-ia que és um anjo! Como podes ser tu a senhora da foice impiedosa?!...
- A travessia para a outra margem representa, invariavelmente, a transição para uma vida melhor. Quando vivemos em paz connosco próprios e com os outros, como sei que sempre aconteceu contigo, não tememos a morte. E, quando ela chega, entregamo-nos por inteiro, abrindo-lhe pacificamente os braços, para que ela nos tome e nos conduza nas suas asas.
- Mas, Graça…E se eu fugir de ti? - indagou Leonor, esforçando-se por desenhar um sorriso sardónico no seu rosto.
- Minha querida! - exclamou Graça, acariciando a face de Leonor. - Encontrar-te-ei sempre, porque quando é chegada a hora de uma pessoa, ela tem, inelutavelmente, de empreender a viagem.
- Quando partiremos?
- Vamos indo agora. Vou acompanhar-te através de um túnel de luz que vai desembocar num prado verde banhado pela paz celestial.
- Graça! - chamou Leonor preocupada. - Posso fazer-te uma pergunta?
- Todas as que quiseres.
- Como vão os meus pais aguentar a dor da perda da filha?
Foi com um sorriso maroto que Graça respondeu:
- Minha boa Leonor, não me obrigues a revelar as surpresas todas, mas, para tua tranquilidade, tenho de te transmitir que, muito em breve, o céu ficará em festa com a chegada dos teus pais. E agora, tenho uma outra surpresa para ti: a tua avó Marta espera-te à entrada do prado verde. Mal pode esperar pelo reencontro. Dá-me a tua mão e caminha a meu lado!
- A avó Marta sabe que vou chegar?! – perguntou Leonor sem caber em si de contente.
- Claro que sim! Achas que eu ia deixar de lhe contar? Ela apenas me pediu que não demorássemos.
Um túnel de luz tomou forma no salão de Leonor.
Esta, confiante, deu a mão a Graça e perguntou-lhe:
- Vais levar-me agora, e depois? Volto a ver-te? E diz-me: Vou ver a face de Deus? Nós, simples mortais, chegaremos algum dia, a ter o privilégio de ver o rosto de Deus?
Graça ofertou-lhe um sorriso do tamanho do universo e, quando se preparava para lhe responder pausada e serenamente, como era seu timbre, Leonor acordou na cama do quarto do Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. O carcinoma que a massacrava, estava, há muito, irremediavelmente metastizado em vários órgãos do seu corpo, mostrando-se já ultrapassados os trinta dias que o médico oncologista previra que ela viveria.
Como as metástases não dessem tréguas a Leonor, a equipa médica tomou, nesse dia, a decisão de lhe induzir o coma.
Volvidos três dias, à hora do crepúsculo, quando uma luminosidade cinzenta se abatia sobre a cidade, Leonor sentiu o afago e o perfume de Graça no seu rosto e soube que um anjo bom estava ali para lhe dar a mão e a conduzir por um túnel de luz que a libertaria do sofrimento atroz só nesta vida consentido.
De mão dada com o anjo, iniciou a caminhada com passo firme.
Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa
domingo, 13 de março de 2011
Metamorfose
Sonha a crisálida um voo azul;
solta as asas que não tem; fende
o espaço que nunca viu. Imóvel,
tem todo o tempo para se iludir.
Mesmo que chova ou faça sol, o céu
da crisálida não muda: feito
com as teias do casulo, é o céu
da matamorfose, sem ar nem transparência.
Vive em mim essa crisálida. Deixo-a
transformar-se, sonhar o seu sonho
de voo, bater as asas que nunca teve.
E, se um dia sair do casulo, sei
que arrastará as teias da crisálida,
chorando o dia em que se fez borboleta.
in "O Breve Sentimento do Eterno", de Nuno Júdice, Edições Nelson de Matos, 2008, pag. 39.
Sonha a crisálida um voo azul;
solta as asas que não tem; fende
o espaço que nunca viu. Imóvel,
tem todo o tempo para se iludir.
Mesmo que chova ou faça sol, o céu
da crisálida não muda: feito
com as teias do casulo, é o céu
da matamorfose, sem ar nem transparência.
Vive em mim essa crisálida. Deixo-a
transformar-se, sonhar o seu sonho
de voo, bater as asas que nunca teve.
E, se um dia sair do casulo, sei
que arrastará as teias da crisálida,
chorando o dia em que se fez borboleta.
in "O Breve Sentimento do Eterno", de Nuno Júdice, Edições Nelson de Matos, 2008, pag. 39.
Tempo
Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã
que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem
as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda
houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu ou ganhou.
in "O Breve Sentimento do Eterno", de Nuno Júdice, Edições Nelson de Matos, 2008, pag. 37.
Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã
que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem
as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda
houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu ou ganhou.
in "O Breve Sentimento do Eterno", de Nuno Júdice, Edições Nelson de Matos, 2008, pag. 37.
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